Imagem: TingTing Huang
Eu não sei que música colocar. Eu não sei que roupa vestir.
Eu não quero vestir preto pro teu funeral.
Eu não quero ouvir a música que tocava naquela noite, eu não quero ouvir algo que queira dizer algo.
Queria que chovesse, mas faz um calor ameno e o céu continua lindo. Você morreu e a temperatura nem mudou, e o mundo não age de acordo.
Meu celular apita, descontrolado, nenhuma prova foi cancelada e nem as pessoas me deixam chorar em paz.
E eu também não quero chorar.
Tudo errado.
Essa música triste tomou um significado feliz, tem até um cara sorrindo nesse vídeo, por Deus.
Coloco minhas roupas, um vestido colorido pra dançar, que faz um efeito incrível quando eu giro. Eu não quero me sentar e chorar, eu quero sair pra dançar, meu coração tá batendo, tem sangue fluindo por todo o meu corpo, pequenos focos de energia que aparecem e desaparecem e me tornam capaz de sentir milhões de coisas em um segundo. De sentir a tristeza pela sua morte, a felicidade pela sua breve existência e a vontade de descobrir o que mais tem por aí.
Meu cabelo tá macio, cheiroso, enrolado, meu corpo tá pedindo atividade, uma massagem nas costas e um beijo na boca daqueles que demoram uma eternidade pra acabar.
Eu quero chorar, quero acender uma vela pro teu cadáver, eu quero limpar meu batom e prender meus cabelos em um coque austero, sair em um dia cinzento pra chorar tua morte atrás dos meus óculos escuros, mas a verdade é
já faz muito muito tempo que você morreu pra mim.
Eu já vivi essa dor incontáveis vezes, choramingando no balcão de alguns bares, mesas de cafés, fast-foods, sob as páginas arrancadas dos meus livros, diários e guardanapos, abraçada ou não à garrafas de vinho, catuaba e latas de guaraná.
As cartas do tarô previram sua morte incontáveis vezes, pra que eu me preparasse e eu acho que eu finalmente fiz isso, então não é uma grande surpresa que tenha acontecido.
E é, talvez você mereça uma cerimônia bonita, umas flores, algumas palavras e eu juro que esse texto correu na contramão da minha vontade de colocar uma música bem triste e escrever sobre o quanto você é incrível, mas sabe, será que você foi mesmo? Quero dizer, eu nem sei se você realmente existiu ou se eu montei seus pedaços e preenchi as lacunas com coisas que eu queria que tivessem acontecido.
Minha intenção era escrever um texto bonito, Magnetc North, sobre como eu sempre acabo onde você está, mas a verdade é que meu norte tá apontando pra quilômetros de distância de você, um mundo novo que eu ainda vou desbravar, onde eu vou sangrar, eu tô a dezenas de livros de distância de você, dezenas de episódios, de histórias e de lágrimas.
Um dia desses, eu prometo visitar seu túmulo, comprar flores, quem sabe, eu prometo contar boas histórias sobre você, Mas isso é tudo. Porque a única coisa que eu me lembro de verdade sobre você, nesse exato momento, é que você não tinha nada pra oferecer.
Bom, eu tenho.
A gente se vê.
Sem pressa.
39x09 A moça
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
- Mas e se eu te amar? E se eu quiser continuar, e se eu quiser nunca dizer adeus?
Sinto aquela coisa ruim, aquela aflição doida, mas Otto segura a minha mão e eu não digo nada quando você se levanta e sai do café, colocando as mãos sobre a cabeça pra se proteger da chuva torrencial.
Espero você voltar correndo pro calor do café, pro gosto amargo, o cheiro de gordura e fumaça de cigarro. Mas você não volta e eu olho para Otto, que sacode a cabeça devagar.
Não, não não, não não não não, eu não sei o que fazer, eu não sei o que acontece agora, eu preciso sair daqui. Ele tenta me acalmar, mas eu não quero dormir, eu quero ficar acordada, eu quero amar de novo, eu quero amar agora, eu quero nunca mais fechar meus olhos, eu quero
Ele me segura e eu arranho seu rosto, eu tento morder seus braços e me desvencilhar do seu abraço firme, eu quero entender o que tá acontecendo comigo, mas eu não consigo parar de gritar, de espernear e de lutar
Alguém tenta ajudar, talvez Jack ou Berenice, mas eu não consigo me controlar, eu esperneio, eu dou uma cabeçada em alguém, alguém arranha meus braços, puxa meu cabelo, tenta me derrubar e eu tropeço e fico de quatro, engatinhando desesperadamente, e chutando pessoas às cegas, ouvindo ais e uis, sem nunca parar, enquanto me puxam as pernas e tentam rasgar minhas roupas.
Eu tento me levantar, mas alguém se joga em cima de mim, agarra minha cintura, arranha meu rosto inteiro e eu golpeio o ar sem conseguir enxergar, eu me sacudo inteira, até perceber que é com McCandless que estou lidando. Agarro os cabelos dele e puxo, puxo, até arrancar parte dos fios, e ele uiva, xinga e me larga, pra que eu possa continuar me arrastando.
Eu me arrasto até a porta e me levanto, ofegante, vitoriosa. Quase lá, eu agarro a maçaneta, abro a porta e quase meto a cabeça no rosto desse cara que acabou de chegar.
Acontece, a gente se olha nos olhos e eu não sinto absolutamente nada.
Ele olha meu cabelo bagunçado, minhas roupas rasgadas, rosto arranhado e emite um som curto e baixo de desaprovação.
- Com licença, ele diz, preparando-se para entrar.
Mas eu não saio da frente.
- Já estamos fechando, digo.
- Ah. Que pena.
Ele dá meia volta, indo na direção da chuva e vai se afastando devagar.
- Ei. - grito, e ele se volta pra olhar - Eu conheço um lugar. Fica perto daqui.
Ele me olha, intrigado, como se estivesse se certificando de que foi com ele que falei e, depois do que parece uma eternidade, acena com a cabeça.
Eu não sei o que isso quer dizer, só sei que é assim que acontece.
Deseje-me sorte.
Acho que vou precisar.
- Mas e se eu te amar? E se eu quiser continuar, e se eu quiser nunca dizer adeus?
Sinto aquela coisa ruim, aquela aflição doida, mas Otto segura a minha mão e eu não digo nada quando você se levanta e sai do café, colocando as mãos sobre a cabeça pra se proteger da chuva torrencial.
Espero você voltar correndo pro calor do café, pro gosto amargo, o cheiro de gordura e fumaça de cigarro. Mas você não volta e eu olho para Otto, que sacode a cabeça devagar.
Não, não não, não não não não, eu não sei o que fazer, eu não sei o que acontece agora, eu preciso sair daqui. Ele tenta me acalmar, mas eu não quero dormir, eu quero ficar acordada, eu quero amar de novo, eu quero amar agora, eu quero nunca mais fechar meus olhos, eu quero
Ele me segura e eu arranho seu rosto, eu tento morder seus braços e me desvencilhar do seu abraço firme, eu quero entender o que tá acontecendo comigo, mas eu não consigo parar de gritar, de espernear e de lutar
Alguém tenta ajudar, talvez Jack ou Berenice, mas eu não consigo me controlar, eu esperneio, eu dou uma cabeçada em alguém, alguém arranha meus braços, puxa meu cabelo, tenta me derrubar e eu tropeço e fico de quatro, engatinhando desesperadamente, e chutando pessoas às cegas, ouvindo ais e uis, sem nunca parar, enquanto me puxam as pernas e tentam rasgar minhas roupas.
Eu tento me levantar, mas alguém se joga em cima de mim, agarra minha cintura, arranha meu rosto inteiro e eu golpeio o ar sem conseguir enxergar, eu me sacudo inteira, até perceber que é com McCandless que estou lidando. Agarro os cabelos dele e puxo, puxo, até arrancar parte dos fios, e ele uiva, xinga e me larga, pra que eu possa continuar me arrastando.
Eu me arrasto até a porta e me levanto, ofegante, vitoriosa. Quase lá, eu agarro a maçaneta, abro a porta e quase meto a cabeça no rosto desse cara que acabou de chegar.
Acontece, a gente se olha nos olhos e eu não sinto absolutamente nada.
Ele olha meu cabelo bagunçado, minhas roupas rasgadas, rosto arranhado e emite um som curto e baixo de desaprovação.
- Com licença, ele diz, preparando-se para entrar.
Mas eu não saio da frente.
- Já estamos fechando, digo.
- Ah. Que pena.
Ele dá meia volta, indo na direção da chuva e vai se afastando devagar.
- Ei. - grito, e ele se volta pra olhar - Eu conheço um lugar. Fica perto daqui.
Ele me olha, intrigado, como se estivesse se certificando de que foi com ele que falei e, depois do que parece uma eternidade, acena com a cabeça.
Eu não sei o que isso quer dizer, só sei que é assim que acontece.
Deseje-me sorte.
Acho que vou precisar.
39x08 Too much to ask
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Imagem: TingTing Huang
Minha cabeça está cheia de segredos.
Ando misturando histórias,
esqueço fatos,
eu sei coisas demais sobre as pessoas,
e os meus próprios segredos escorrem pelos meus dedos enquanto durmo.
Tenho essa sensação ruim, constantemente.
Sensação de não ter feito algo,
o peito apertado,
ou será que eu fiz algo que não deveria ter feito?
Eu disse algo errado?
Não consigo dormir.
Fico pensando, pensando, remoendo seus segredos e como eles afetam as outras pessoas.
L. enfia uma chave de fenda gelada no meu ouvido direito,
aperta uns parafusos,
fumamos um cigarro,
tomo uns comprimidos
e me sinto aliviada porque ela não tem nada novo pra dizer,
porque ela está morta.
- Eu tô morta? Essa sensação de estar saindo do meu corpo, quer dizer que estou morta? Eu nunca sei.
Ela dá de ombros, eu pego meu celular pra fazer alguma burrice, mas eu não sinto vontade de fazer nada. Devo estar mesmo morta, porque não encontro nada pra fazer e falar com você é a última coisa na minha mente.
Tem algo errado, mas não é o de sempre, eu acho.
É uma sensação.
Eu tento explicar a L. que não é a mesma coisa de antes, é diferente.
É como se eu não fosse real.
Não tem a ver com estar morta, ou tristeza, ou com o que aconteceu naquelas noites, eu acho.
Mas eu sinto como se nada disso estivesse acontecendo.
- Está acontecendo? Prove que está acontecendo. Mostre algo, faça algo.
Mas ela só sopra fumaça no meu rosto e me manda calar a boca e parar de ser tão maluca o tempo todo, e eu me deito na grama, sem saber se tô acordada ou se tô dormindo, se esses últimos meses realmente aconteceram ou se eu imaginei tudo,
se eu imaginei janeiro,
e ainda estou deitada na cama da minha avó em dezembro,
ansiosa pelo início desse ano,
pelas possibilidades
Talvez depois eu reflita e perceba que as coisas tinham que ter acontecido dessa maneira, que eu precisava --
mas a sensação de estar dormindo, de que isso é tudo um sonho
é boa,
boa demais pra desperdiçar.
Minha cabeça está cheia de segredos.
Ando misturando histórias,
esqueço fatos,
eu sei coisas demais sobre as pessoas,
e os meus próprios segredos escorrem pelos meus dedos enquanto durmo.
Tenho essa sensação ruim, constantemente.
Sensação de não ter feito algo,
o peito apertado,
ou será que eu fiz algo que não deveria ter feito?
Eu disse algo errado?
Não consigo dormir.
Fico pensando, pensando, remoendo seus segredos e como eles afetam as outras pessoas.
L. enfia uma chave de fenda gelada no meu ouvido direito,
aperta uns parafusos,
fumamos um cigarro,
tomo uns comprimidos
e me sinto aliviada porque ela não tem nada novo pra dizer,
porque ela está morta.
- Eu tô morta? Essa sensação de estar saindo do meu corpo, quer dizer que estou morta? Eu nunca sei.
Ela dá de ombros, eu pego meu celular pra fazer alguma burrice, mas eu não sinto vontade de fazer nada. Devo estar mesmo morta, porque não encontro nada pra fazer e falar com você é a última coisa na minha mente.
Tem algo errado, mas não é o de sempre, eu acho.
É uma sensação.
Eu tento explicar a L. que não é a mesma coisa de antes, é diferente.
É como se eu não fosse real.
Não tem a ver com estar morta, ou tristeza, ou com o que aconteceu naquelas noites, eu acho.
Mas eu sinto como se nada disso estivesse acontecendo.
- Está acontecendo? Prove que está acontecendo. Mostre algo, faça algo.
Mas ela só sopra fumaça no meu rosto e me manda calar a boca e parar de ser tão maluca o tempo todo, e eu me deito na grama, sem saber se tô acordada ou se tô dormindo, se esses últimos meses realmente aconteceram ou se eu imaginei tudo,
se eu imaginei janeiro,
e ainda estou deitada na cama da minha avó em dezembro,
ansiosa pelo início desse ano,
pelas possibilidades
Talvez depois eu reflita e perceba que as coisas tinham que ter acontecido dessa maneira, que eu precisava --
mas a sensação de estar dormindo, de que isso é tudo um sonho
é boa,
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39x07 Cavorting
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Imagem: TingTing Huang
Eu precisava sair, sair de casa e respirar.
Saí pra dançar, mas não era o bastante, eu estava faminta. Precisava sair pra caçar.
Pintei meu rosto, meus olhos, eu me camuflei pra parecer mais gente, mais
humana.
Apanhei minhas armas e corri, minhas botas fazendo barulho ao entrar em contato com o concreto, enquanto eu rezava pra ela que me trouxesse algo bom pra comer.
Algo doce.
Mas ela me abandonou,
muitos éons atrás,
ela me abandonou à deriva no meio de um lago gelado, enquanto eu pedia só um pouquinho de paciência,
um pouco mais de resiliência.
(Tem gente que vive tanto tempo com a dor, por que eu não podia? Por que eu não podia ser uma dessas pessoas?)
Mesmo sabendo disso,
eu escolhi rezar,
me ajoelhar nua sob a lua crescente e renovar meus votos,
me despir e correr,
farejando o ar, apurando os ouvidos pra escutar o coração das feras que vivem escondidas no escuro.
Encontrei você,
farejei o ar ao seu redor,
e esperei,
ouvindo o seu coração bater devagar.
Eu salivava, faminta, e minha boca seca atrapalhava minha fala,
a fome quase atrapalhava minha concentração,
mas eu esperei.
Sutil, eu fiquei encoberta pela folhagem, controlando meus batimentos,
olhando nos olhos dos outros caçadores como quem diz "aqui não",
esperei em silêncio.
Eu fui me intoxicando com os odores do sangue e das ervas mágicas, ninfas
e com o gosto do vento que a sua boca soprava na minha direção.
o sonho dos gatos acordou dentro de mim e se espreguiçou, sacudindo e arrepiando todo o meu corpo molhado, gelado,
morto
eu olhei nos seus olhos e você olhou de volta
Era isso então, Mulher?
Eu coloquei meus dedos nas têmporas dele, senti o pulsar,
eu estava faminta,
mas será que estava?
Ou será que é o que você quer que eu pense?
Que eu preciso disso,
sair pela cidade, nua, descalça,
voltar com os pés em carne viva,
sem saber como andar até o banheiro,
sem saber quem sou,
ou de quem é todo esse sangue
"Não", eu disse, soprando a fumaça pra longe da água.
Peguei minhas roupas e fui pra casa, tonta
ferida, suja,
sob o primeiro sol que surge atrás da ponte.
Deitei no colchão, na sala, nua,
porque não conseguia andar mais do que alguns passos pra trocar de roupa,
não conseguia me arrastar até o banheiro
Sonhei com ele, coisa que não acontecia há meses,
e tive medo.
Tive muito medo do que isso pode significar.
Sonhei com ele porque você quer me punir por não ter me alimentado,
por não ter sacrificado ninguém no seu altar, quando você me ofereceu tudo o que eu precisava.
Eu tô vendo agora que você tentou,
mas não da maneira como eu tentaria,
porque eu não quero machucar ninguém.
Eu só tô com fome,
mas dá pra aguentar,
dá pra esperar
até não dar mais.
Eu precisava sair, sair de casa e respirar.
Saí pra dançar, mas não era o bastante, eu estava faminta. Precisava sair pra caçar.
Pintei meu rosto, meus olhos, eu me camuflei pra parecer mais gente, mais
humana.
Apanhei minhas armas e corri, minhas botas fazendo barulho ao entrar em contato com o concreto, enquanto eu rezava pra ela que me trouxesse algo bom pra comer.
Algo doce.
Mas ela me abandonou,
muitos éons atrás,
ela me abandonou à deriva no meio de um lago gelado, enquanto eu pedia só um pouquinho de paciência,
um pouco mais de resiliência.
(Tem gente que vive tanto tempo com a dor, por que eu não podia? Por que eu não podia ser uma dessas pessoas?)
Mesmo sabendo disso,
eu escolhi rezar,
me ajoelhar nua sob a lua crescente e renovar meus votos,
me despir e correr,
farejando o ar, apurando os ouvidos pra escutar o coração das feras que vivem escondidas no escuro.
Encontrei você,
farejei o ar ao seu redor,
e esperei,
ouvindo o seu coração bater devagar.
Eu salivava, faminta, e minha boca seca atrapalhava minha fala,
a fome quase atrapalhava minha concentração,
mas eu esperei.
Sutil, eu fiquei encoberta pela folhagem, controlando meus batimentos,
olhando nos olhos dos outros caçadores como quem diz "aqui não",
esperei em silêncio.
Eu fui me intoxicando com os odores do sangue e das ervas mágicas, ninfas
e com o gosto do vento que a sua boca soprava na minha direção.
o sonho dos gatos acordou dentro de mim e se espreguiçou, sacudindo e arrepiando todo o meu corpo molhado, gelado,
morto
eu olhei nos seus olhos e você olhou de volta
Era isso então, Mulher?
Eu coloquei meus dedos nas têmporas dele, senti o pulsar,
eu estava faminta,
mas será que estava?
Ou será que é o que você quer que eu pense?
Que eu preciso disso,
sair pela cidade, nua, descalça,
voltar com os pés em carne viva,
sem saber como andar até o banheiro,
sem saber quem sou,
ou de quem é todo esse sangue
"Não", eu disse, soprando a fumaça pra longe da água.
Peguei minhas roupas e fui pra casa, tonta
ferida, suja,
sob o primeiro sol que surge atrás da ponte.
Deitei no colchão, na sala, nua,
porque não conseguia andar mais do que alguns passos pra trocar de roupa,
não conseguia me arrastar até o banheiro
Sonhei com ele, coisa que não acontecia há meses,
e tive medo.
Tive muito medo do que isso pode significar.
Sonhei com ele porque você quer me punir por não ter me alimentado,
por não ter sacrificado ninguém no seu altar, quando você me ofereceu tudo o que eu precisava.
Eu tô vendo agora que você tentou,
mas não da maneira como eu tentaria,
porque eu não quero machucar ninguém.
Eu só tô com fome,
mas dá pra aguentar,
dá pra esperar
até não dar mais.
39x06 Mais um texto sobre paixão dedicado à pessoa errada
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
(N.A.: Eu não consigo parar de escrever sobre esse cara. Tô obcecada por ele, como vocês podem ver. Não acho isso ruim, acho muito bom, a sensação é boa pra caralho - por enquanto. Vou esperar passar. Enquanto não passa, escrevo)
Acordo cedo, cedo demais, o dia ainda escuro, deitada no sofá, e já tô pensando em nós dois.
Será que tem como a gente sair agora, fugir pras colinas e se esconder atrás de uma árvore pra rir de alguma coisa que só a gente entende?
Você dá uma risada no meio da tarde, o sol queima a minha pele e andamos de bicicleta tirando as mãos do guidão, você parece um adolescente, eu já tô velha demais pra isso, não?
Você me responde que a gente nunca vai ficar velho demais pra isso, aí andamos de patins.
Eu te explico que não sei cozinhar, mas a gente inventa um prato novo, feito de macarrão e tomate, o gosto fica horrível, mas você come sem fazer careta. Você acena com a cabeça e eu acho muito engraçada a forma como você não consegue mexer apenas a cabeça, tem que mexer o corpo todo.
- Aaaa você é muito desengonçado, que agonia!
Você não responde à ofensa, só sacode a cabeça (e o corpo) e sorri, como se dissesse "olha quem fala", e eu sinto uma ternura tão grande por você, tão grande, que fico meio emocionada e finjo que tô lavando a louça, pra não demonstrar demais.
A gente fica tanto tempo sem se ver, por que a gente fica tanto tempo sem se ver? Por que pessoas legais não moram perto mesmo?
Invento que a gente enjoaria um do outro, mas você acha que não, diz alguma coisa que não tem a menor graça, mas que é engraçado porque eu tô apaixonada por você. A verdade é que também acho que não, mas morar longe tem suas vantagens, tipo essa
chegar em casa feito uma maluca descabelada e você tomando sol no nariz, sentado na minha porta com essa mala cheia de tralhas e de camisas amassadas, bermudas jeans e outras coisas aleatórias, tudo tão brilhante e limpinho, a gente se abraça tão forte e você cheira tão bem, tão bem que o meu dia pesado, minha vida caótica, tudo some
e eu fico só no mundo, só com você e com seu cheiro de branco, seu gosto de saudade.
A gente sobe as escadas e eu só quero nunca mais soltar sua mão.
Meu Deus, eu quero nunca mais soltar a sua mão, que coisa assustadora gostar tanto de alguém assim.
Você já dormiu, mas eu não.
Eu tô te olhando, e isso é meio esquisito, meio assustador.
Teu cabelo cai no rosto e se move com a sua respiração, mas eu não tiro.
Eu tô pensando,
eu tô tentando entender, tentando racionalizar, tentando não me jogar tanto pra cima de você
mas no meio desse processo eu não consigo deixar de ver a poesia na sua pele, na maneira como seus olhos se fecham, nos fios da sua barba que nem barba é, nos seus pés que teimam em ficar fora das minhas cobertas limpas, tem alguma coisa em você, alguma coisa diferente de tudo o que eu conheço, de tudo o que já conheci, de tudo o que já houve no mundo, alguma coisa que não é
Porque o que eu tô sentindo não é normal.
Estendo a mão pro teu peito magro e ponho a mão em cima do seu coração.
O teu eu adormecido se move, resmunga e põe a mão em cima da minha.
Adormeço.
Pensei nos nomes dos nossos filhos.
Foi involuntário, estava te olhando brincar de aviãozinho com o teu sobrinho e imaginei nosso filho com cabelos enroladinhos, me imaginei cantando pra ele com minha voz desafinada, enquanto você tenta me explicar essas tuas coisas malucas e maravilhosas, me diz pra não parar, não paro, porque isso é a vida acontecendo.
"Tá ouvindo essa música?", eu pergunto.
Você tá distraído, olhando pela janela, olha pra mim, meio assustado.
Você tá me escondendo algo.
E isso não me perturba, por alguma razão bizarra.
Coisa tua, vou ficar sabendo quando e se tiver que saber, você me pergunta que música é e eu te explico a história e o quanto gosto dela.
Você só fica acenando com a cabeça (e o corpo, haha) e se vira pra olhar pro céu azulzinho, fica calado de novo.
- Tá tudo bem?, pergunto, preocupada.
Aí você olha pra mim, vai piscando os olhos de mansinho, o seu rosto todo se abre, se ilumina, de um jeito que só você consegue fazer, como se tivesse tido uma grande ideia, quase como quando uma música te surge no meio da noite, no meio do almoço de domingo, seu peito infla e eu tô com medo do que você vai dizer, mas tô ansiosa também, eu não sei o que vem por aí, mas eu quero o que vem por aí
Eu quero o que vem por aí, seja o que for.
Seja o que for.
(N.A.: Eu não consigo parar de escrever sobre esse cara. Tô obcecada por ele, como vocês podem ver. Não acho isso ruim, acho muito bom, a sensação é boa pra caralho - por enquanto. Vou esperar passar. Enquanto não passa, escrevo)
Acordo cedo, cedo demais, o dia ainda escuro, deitada no sofá, e já tô pensando em nós dois.
Será que tem como a gente sair agora, fugir pras colinas e se esconder atrás de uma árvore pra rir de alguma coisa que só a gente entende?
Você dá uma risada no meio da tarde, o sol queima a minha pele e andamos de bicicleta tirando as mãos do guidão, você parece um adolescente, eu já tô velha demais pra isso, não?
Você me responde que a gente nunca vai ficar velho demais pra isso, aí andamos de patins.
Eu te explico que não sei cozinhar, mas a gente inventa um prato novo, feito de macarrão e tomate, o gosto fica horrível, mas você come sem fazer careta. Você acena com a cabeça e eu acho muito engraçada a forma como você não consegue mexer apenas a cabeça, tem que mexer o corpo todo.
- Aaaa você é muito desengonçado, que agonia!
Você não responde à ofensa, só sacode a cabeça (e o corpo) e sorri, como se dissesse "olha quem fala", e eu sinto uma ternura tão grande por você, tão grande, que fico meio emocionada e finjo que tô lavando a louça, pra não demonstrar demais.
A gente fica tanto tempo sem se ver, por que a gente fica tanto tempo sem se ver? Por que pessoas legais não moram perto mesmo?
Invento que a gente enjoaria um do outro, mas você acha que não, diz alguma coisa que não tem a menor graça, mas que é engraçado porque eu tô apaixonada por você. A verdade é que também acho que não, mas morar longe tem suas vantagens, tipo essa
chegar em casa feito uma maluca descabelada e você tomando sol no nariz, sentado na minha porta com essa mala cheia de tralhas e de camisas amassadas, bermudas jeans e outras coisas aleatórias, tudo tão brilhante e limpinho, a gente se abraça tão forte e você cheira tão bem, tão bem que o meu dia pesado, minha vida caótica, tudo some
e eu fico só no mundo, só com você e com seu cheiro de branco, seu gosto de saudade.
A gente sobe as escadas e eu só quero nunca mais soltar sua mão.
Meu Deus, eu quero nunca mais soltar a sua mão, que coisa assustadora gostar tanto de alguém assim.
Você já dormiu, mas eu não.
Eu tô te olhando, e isso é meio esquisito, meio assustador.
Teu cabelo cai no rosto e se move com a sua respiração, mas eu não tiro.
Eu tô pensando,
eu tô tentando entender, tentando racionalizar, tentando não me jogar tanto pra cima de você
mas no meio desse processo eu não consigo deixar de ver a poesia na sua pele, na maneira como seus olhos se fecham, nos fios da sua barba que nem barba é, nos seus pés que teimam em ficar fora das minhas cobertas limpas, tem alguma coisa em você, alguma coisa diferente de tudo o que eu conheço, de tudo o que já conheci, de tudo o que já houve no mundo, alguma coisa que não é
Porque o que eu tô sentindo não é normal.
Estendo a mão pro teu peito magro e ponho a mão em cima do seu coração.
O teu eu adormecido se move, resmunga e põe a mão em cima da minha.
Adormeço.
Pensei nos nomes dos nossos filhos.
Foi involuntário, estava te olhando brincar de aviãozinho com o teu sobrinho e imaginei nosso filho com cabelos enroladinhos, me imaginei cantando pra ele com minha voz desafinada, enquanto você tenta me explicar essas tuas coisas malucas e maravilhosas, me diz pra não parar, não paro, porque isso é a vida acontecendo.
"Tá ouvindo essa música?", eu pergunto.
Você tá distraído, olhando pela janela, olha pra mim, meio assustado.
Você tá me escondendo algo.
E isso não me perturba, por alguma razão bizarra.
Coisa tua, vou ficar sabendo quando e se tiver que saber, você me pergunta que música é e eu te explico a história e o quanto gosto dela.
Você só fica acenando com a cabeça (e o corpo, haha) e se vira pra olhar pro céu azulzinho, fica calado de novo.
- Tá tudo bem?, pergunto, preocupada.
Aí você olha pra mim, vai piscando os olhos de mansinho, o seu rosto todo se abre, se ilumina, de um jeito que só você consegue fazer, como se tivesse tido uma grande ideia, quase como quando uma música te surge no meio da noite, no meio do almoço de domingo, seu peito infla e eu tô com medo do que você vai dizer, mas tô ansiosa também, eu não sei o que vem por aí, mas eu quero o que vem por aí
Eu quero o que vem por aí, seja o que for.
Seja o que for.
39x05 Nuvem ou o meu medo de nós dois
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pergunto se você penteia o cabelo
Assim mesmo,
"você penteia o cabelo?"
Pergunto assim porque eu não sei como me expressar melhor. Eu tô sentindo tanta coisa e não sei como dizer.
Tô apaixonada por você.
Mas você não lê meus pensamentos,
você não me lê.
Responde "penteio", porque você não tem graça.
O que acontece com essas pessoas? Por que elas não podem ser engraçadas, continuar o diálogo, facilitar as coisas? Por que você tem que ser uma dessas pessoas?
Não me conformo.
Eu não sei me doar.
Eu não sou só isso que você pode ver, mas eu não sei como te dizer.
Eu não sei como beijar a sua boca pra te fazer entender e você tá me olhando confuso, confuso.
Você não entende nada de mim, não entende nada.
Eu te mostro minha intensidade, meu caos e você se encolhe feito uma mola,
não fuja de mim, eu tento dizer, mas não adianta nada
Por que você me procura se não quer me encontrar?
Por que você me procura, se não quer me ver?
Não, não me abraça agora.
Não me abraça agora, porque eu posso querer ficar.
E não podemos ficar, a gente não tem jeito.
Você me diz pra ter coragem, que a gente dá um jeito.
Mas nessas coisas não se dá jeito, essas coisas são ou não são.
Eu não quero você também, eu quero o impossível,
eu quero a não possibilidade de ficarmos juntos.
Eu quero você no seu dia mais triste, no momento em que você estiver em casa querendo ficar só,
eu quero você nas horas em que você está ocupado
e quando está dormindo, quando está sonhando com uma garota que não sou eu, que está longe de ser eu,
que eu estou longe de ser.
Eu quero desistir sem tentar, eu quero desistir agora,
eu quero arrumar minhas malas e ir embora,
por que você não diz a coisa certa?
Me conta alguma coisa que você aprendeu,
me conta uma coisa nova,
me diz uma coisa burra que você não entende,
me fala uma coisa sobre essa sua cacofonia poética, mas não me deixa ir embora
Mas você só me olha, só me olha,
e eu não sei ler pensamentos também, não entendo nada de você
ou das suas sinapses lentas e brilhantes, eu me movimento rápido, minha doença é outra,
e eu não sei falar tua língua, eu não sei acreditar no teu delírio.
Cê tá sentado, camisa amassada, cabelo bagunçado, me olhando, me olhando,
pernas cruzadas, usando meias brancas demais,essa camisa é branca demais,
você é demais, e o excesso de você me dá nos nervos,
me vira pelo avesso, me tira toda a estabilidade, quero ir pra casa me empanturrar de pipoca e esquecer o teu nome
o teu rosto e o teu sorriso, mas você tá grudado na minha pele, mesmo sem me tocar
e eu sei que não adianta lavar, não adianta arrancar minha pele inteira, porque você veio de dentro pra fora
você não sai.
E eu tô com medo.
Tô com medo do que você vai fazer comigo, se eu deixar.
Começo a explodir e derreter.
Você acorda, se movimenta, rápido demais até pra você, mas do teu jeito, no seu tempo, seca minha lágrima única e solitária, segura a minha mão
e diz a coisa certa
as palavras mágicas 3:40
e é tão estúpido, tão sem graça
que eu rio,
eu não consigo parar de rir.
pergunto se você penteia o cabelo
Assim mesmo,
"você penteia o cabelo?"
Pergunto assim porque eu não sei como me expressar melhor. Eu tô sentindo tanta coisa e não sei como dizer.
Tô apaixonada por você.
Mas você não lê meus pensamentos,
você não me lê.
Responde "penteio", porque você não tem graça.
O que acontece com essas pessoas? Por que elas não podem ser engraçadas, continuar o diálogo, facilitar as coisas? Por que você tem que ser uma dessas pessoas?
Não me conformo.
Eu não sei me doar.
Eu não sou só isso que você pode ver, mas eu não sei como te dizer.
Eu não sei como beijar a sua boca pra te fazer entender e você tá me olhando confuso, confuso.
Você não entende nada de mim, não entende nada.
Eu te mostro minha intensidade, meu caos e você se encolhe feito uma mola,
não fuja de mim, eu tento dizer, mas não adianta nada
Por que você me procura se não quer me encontrar?
Por que você me procura, se não quer me ver?
Não, não me abraça agora.
Não me abraça agora, porque eu posso querer ficar.
E não podemos ficar, a gente não tem jeito.
Você me diz pra ter coragem, que a gente dá um jeito.
Mas nessas coisas não se dá jeito, essas coisas são ou não são.
Eu não quero você também, eu quero o impossível,
eu quero a não possibilidade de ficarmos juntos.
Eu quero você no seu dia mais triste, no momento em que você estiver em casa querendo ficar só,
eu quero você nas horas em que você está ocupado
e quando está dormindo, quando está sonhando com uma garota que não sou eu, que está longe de ser eu,
que eu estou longe de ser.
Eu quero desistir sem tentar, eu quero desistir agora,
eu quero arrumar minhas malas e ir embora,
por que você não diz a coisa certa?
Me conta alguma coisa que você aprendeu,
me conta uma coisa nova,
me diz uma coisa burra que você não entende,
me fala uma coisa sobre essa sua cacofonia poética, mas não me deixa ir embora
Mas você só me olha, só me olha,
e eu não sei ler pensamentos também, não entendo nada de você
ou das suas sinapses lentas e brilhantes, eu me movimento rápido, minha doença é outra,
e eu não sei falar tua língua, eu não sei acreditar no teu delírio.
Cê tá sentado, camisa amassada, cabelo bagunçado, me olhando, me olhando,
pernas cruzadas, usando meias brancas demais,essa camisa é branca demais,
você é demais, e o excesso de você me dá nos nervos,
me vira pelo avesso, me tira toda a estabilidade, quero ir pra casa me empanturrar de pipoca e esquecer o teu nome
o teu rosto e o teu sorriso, mas você tá grudado na minha pele, mesmo sem me tocar
e eu sei que não adianta lavar, não adianta arrancar minha pele inteira, porque você veio de dentro pra fora
você não sai.
E eu tô com medo.
Tô com medo do que você vai fazer comigo, se eu deixar.
Começo a explodir e derreter.
Você acorda, se movimenta, rápido demais até pra você, mas do teu jeito, no seu tempo, seca minha lágrima única e solitária, segura a minha mão
e diz a coisa certa
as palavras mágicas 3:40
e é tão estúpido, tão sem graça
que eu rio,
eu não consigo parar de rir.
39x04 Rejoice
Postado por
garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Eu conto coisas que me fariam arrepiar os cabelos, fosse eu mais humana.
Tô morta por dentro, eu não sinto nada por mim, nem por ninguém, eu machuco as pessoas, eu vou te machucar, sem dó nem piedade, eu tiro meia máscara, eu te dou familiaridade suficiente pra você ir embora, mas você não vai.
Pior: você quer ficar, acha que somos iguais - e talvez sejamos.
Talvez a gente seja igualzinho, e o monstro em mim saúde o monstro em você, mas o que isso diz sobre nós?
Você quer se sentir em casa no meu escuro, me contar sobre a morte e pecados não expiados, mas não
Eu quero me alimentar de sangue puro, sentir o gosto de quem é feliz, eu quero me alimentar de inocentes, eu quero que me olhem como se eu pudesse ser salva.
É o que você quer também, pense um pouco.
Eu não quero me sentir um monstro o tempo todo, quero uma vida normal, uma família de margarina, vida corriqueira, brigar pela cor das paredes, eu quero o banal, o fútil, alguém que não tenha medo do que escondo, do que eu já fiz, do que eu sou capaz de fazer, não quero ser eternamente o brinquedo quebrado, eu quero mais.
Mas você olha minhas cicatrizes, me mostra as tuas como se fosse um jogo de "quem tem mais" e fica me olhando como se eu fosse uma nova aquisição pro teu clube secreto.
Eu conheço esse olhar, venho fugindo dele há 10 anos.
Eu não quero ser olhada assim, eu quero gente que me veja com olhos de quem quer que dê certo, como se eu não estivesse amaldiçoada, como se eu tivesse jeito.
Cartas na mesa, eu não tenho nada pra oferecer, e não quero nada que não seja ir embora pra casa, dormir um sono intranquilo no chão da sala, sonhar com as coisas que eu não tenho, com as pessoas que não conheci.
Você já experimentou algo assim? Alguém já te olhou assim? Como se você fosse normal, bonito de se ver, como se não fosse estragado, como se fosse
bom?
Eu posso estar confusa, posso não estar entendendo nada de nada, perdida no meio da bagunça do meu quarto, da bagunça da minha vida e dos meus sentimentos, eu posso não ter nada aqui pra ninguém.
Mas eu sei o que eu quero.
E é isso o que eu quero, o monstro dentro de mim bem amarrado e amordaçado, eu quero estabilidade, viver de fingimento, se for preciso, eu quero a sensação de normalidade, de não andar diariamente na beira do tal abismo, eu quero andar de bicicleta no domingo, eu quero acordar com o sol no rosto e me levantar de bom humor,
dar um sorriso involuntário, quero explicar uma coisa que não seja mórbida ou sombria, quero não querer assustar.
Você vai dizer
que eu quero não ser eu.
E é exatamente isso.
Eu conto coisas que me fariam arrepiar os cabelos, fosse eu mais humana.
Tô morta por dentro, eu não sinto nada por mim, nem por ninguém, eu machuco as pessoas, eu vou te machucar, sem dó nem piedade, eu tiro meia máscara, eu te dou familiaridade suficiente pra você ir embora, mas você não vai.
Pior: você quer ficar, acha que somos iguais - e talvez sejamos.
Talvez a gente seja igualzinho, e o monstro em mim saúde o monstro em você, mas o que isso diz sobre nós?
Você quer se sentir em casa no meu escuro, me contar sobre a morte e pecados não expiados, mas não
Eu quero me alimentar de sangue puro, sentir o gosto de quem é feliz, eu quero me alimentar de inocentes, eu quero que me olhem como se eu pudesse ser salva.
É o que você quer também, pense um pouco.
Eu não quero me sentir um monstro o tempo todo, quero uma vida normal, uma família de margarina, vida corriqueira, brigar pela cor das paredes, eu quero o banal, o fútil, alguém que não tenha medo do que escondo, do que eu já fiz, do que eu sou capaz de fazer, não quero ser eternamente o brinquedo quebrado, eu quero mais.
Mas você olha minhas cicatrizes, me mostra as tuas como se fosse um jogo de "quem tem mais" e fica me olhando como se eu fosse uma nova aquisição pro teu clube secreto.
Eu conheço esse olhar, venho fugindo dele há 10 anos.
Eu não quero ser olhada assim, eu quero gente que me veja com olhos de quem quer que dê certo, como se eu não estivesse amaldiçoada, como se eu tivesse jeito.
Cartas na mesa, eu não tenho nada pra oferecer, e não quero nada que não seja ir embora pra casa, dormir um sono intranquilo no chão da sala, sonhar com as coisas que eu não tenho, com as pessoas que não conheci.
Você já experimentou algo assim? Alguém já te olhou assim? Como se você fosse normal, bonito de se ver, como se não fosse estragado, como se fosse
bom?
Eu posso estar confusa, posso não estar entendendo nada de nada, perdida no meio da bagunça do meu quarto, da bagunça da minha vida e dos meus sentimentos, eu posso não ter nada aqui pra ninguém.
Mas eu sei o que eu quero.
E é isso o que eu quero, o monstro dentro de mim bem amarrado e amordaçado, eu quero estabilidade, viver de fingimento, se for preciso, eu quero a sensação de normalidade, de não andar diariamente na beira do tal abismo, eu quero andar de bicicleta no domingo, eu quero acordar com o sol no rosto e me levantar de bom humor,
dar um sorriso involuntário, quero explicar uma coisa que não seja mórbida ou sombria, quero não querer assustar.
Você vai dizer
que eu quero não ser eu.
E é exatamente isso.
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