17x20 (Maybe, probably) You only live once

 Imagem: TingTing Huang

(Não é difícil entender de que ou de quem trata esse post. O porquê é que está escondido)

"Me leva pra casa, me leva pra casa", era tudo o que você dizia. E eu dirigia, passando rápido pelos buracos, o coração batendo forte de medo, de amor, fui dirigindo por um caminho paradoxal e a sua casa parecia nunca chegar.
Meu coração doía e você nem via nada, só pedia que te levasse pra casa, os olhos miúdos fechados, um cheiro forte de álcool me embriagando junto.
"Não dorme, Mikael, por favor", eu pedi.
"Me leva pra casa"
(Eu não entendia, então, Mikael, eu não queria entender)

Naquela noite, você sorriu pra mim, através de mim, uísque em mãos. Te abracei e segurei seu rosto entre as mãos. "Fica", eu disse. E você rodopiou e cantou, cheirando a uísque e suor.
Entrou no carro e eu ,"fica", mas você me puxou pela mão e eu fui. (As risadas não saíram dos meus ouvidos ainda, sabe?) "Vamos voltar", pedi, mas você só encostou a cabeça no meu ombro. No que é que você pensou? Eu não tive tempo de perguntar. De repente, éramos uma confusão de berros e baques, e eu te enlacei como se fôssemos um só, enquanto o carro voava, enquanto voávamos na direção da grama.
Você era sangue e carne no centro da manhã clara, fundido à grama, ao vidro, à terra. Tentei tirar o vidro do seu cabelo, do seu rosto, disse "Vai ficar tudo bem", mas não era verdade.
Ali, no meio de grilos e luzes de faróis e murmúrios de curiosos, você me viu, finalmente. Disse algo que não escutei, seu coração batia alto demais, me ensurdecia até. Cheguei mais perto, o nariz colado ao seu, pra olhar seus olhinhos escuros de sangue e noite, escutei apenas o final.
Mas eu entendo agora, Mikael, esteja onde estiver.

Deitei na grama, sobre o vidro e o sangue e segurei sua mão de leve, assistindo às lágrimas, gritos e ao nascer de outro sol, o seu último. Só mais um.

17x19 A rush of blood through the head

Imagem: TingTing Huang

Chuva e fogo consumindo aos poucos as árvores, as casas, as pessoas.
"É tudo meu", ele pensa, e joga mais teria sobre os cadáveres, os vivos caindo nos túmulos enquanto enterram seus mortos em covas rasas.
Caminha pelas ruas cheias de fuligem e pó dos arranha-céus caídos, desviando-se dos corpos de bebês sem rosto.
Nas poucas casas intactas, Ele põe fogo e observa-as queimar lentamente enquanto enquanto espera sentir algo - alegria, dor, ira...- salvar a si mesmas, com uma magnum antiga, sem prazer.
"É tudo meu", ele pensa, e sente a pulsação acelerar, as coisas adquirem significado.
Checa o garoto de olhos arregalados que anda atrás dele.
"Vai ficar tudo bem, filho.", o brilho das chamas refletido nos olhos pequenos e castanhos.
Algumas pessoas choram, outras riem enquanto ele atira em uma de cada vez, se perguntando "por que".
Eles correm , assustados, felizes, vivos.
Ele atira em todos , pega o filho no colo e caminham pelo lugar, enquanto esperam que o fogo consuma tudo.
O menino olha as próprias mãos feridas e chora.
"Não adianta pensar nisso. O que importa é que a guerra acabou. Vai brincar"
Enquanto o pai observa, o menino corre no meio dos cadáveres e da fumaça, chutando pedras, corpos e balas.
Um novo dia que chega, pensa o pai. E descansa, antes de voltar ao trabalho.

17x18 Se eu morresse amanhã (21-12-2012)

Imagem: TingTing Huang

Se eu morresse amanhã, não teria me despedido de quem amo - e ele jamais saberia.
Se eu morresse amanhã, meus olhos se encheriam de luz e dos flashes de Coppola, risadas e memórias que roubei.
Se eu morresse amanhã, chegaria ao purgatório sm saber se Dante encontra Beatriz, quem é Lasher, por que a gente acabou, se passei no vestibular.
Se morresse amanhã, nunca teria filhos, nunca me casaria, nunca namoraria, nunca publicaria, nunca dançaria o foxtrot, nunca abriria um cadáver, nunca ouviria outro CD da Florence + the machine, nunca veria meus irmãos quando adultos, nunca leria "Perto do coração selvagem" ou a trilogia de sangue.
Se eu morresse amanhã, nunca conheceria a Coréia e a Irlanda.
Se eu morresse amanhã, não assistiria à copa do mundo ou à 2ª temporada de Homeland.

Mas, se eu morresse amanhã, não teria mais que estudar e fracassar, correr, sofrer, ter medo, escutar, falar, mudar, enfrentar os fins de semana ruins, pensar, sangrar, lutar.
Se eu morresse amanhã, a guerra teria fim.

17x17 Breaking

Imagem: TingTing Huang


Breaking rules: - Alguém já te disse que a sua boca não tem gosto?
- Como assim?
- Ué, não tem gosto. Sempre foi assim.
- É assim que tem que ser.

Breaking bad: Ajoelhada, balbuciou coisas incompreensíveis, me ofereceu dinheiro, e eu, semi-surda, puxei-lhe os cabelos finos e empurrei sua cabeça de encontro ao meu joelho, com força. Uma, duas, três vezes.
Mordia a língua e não sentia dor, só o joelho indo e vindo, esmagando a cartilagem, úmido de sangue.



Breaking dawn: Os olhos arregalados pra escuridão. Medo de quê? Medo de quem? O sono chega, estígio ou não, luto contra ele: ninguém vence. Cochilo de olhos abertos, vejo coisas (vejo gente, insetos minúsculos bebendo meu sangue e comendo minha carne), acordo suada, fecho os olhos, sacudo os lençóis. Cochilo.
A porta range, os encanamentos assobiam e os trovões rugem, tudo fala. Acordo, acendo as luzes, tomo remédios.
Fecho os olhos e resolvo equações, faço distribuições eletrônicas, escrevo cartas mentais, até amanhecer.

Breaking down:  (Um frasco do ar que você respira, uma mecha dos seus cabelos que não faça falta) Eu sei que você pode me ver, que você pode olhar pra mim, se quiser. Que, se eu te tocar, você não vai desaparecer, que você tem cheiro, gosto e sua voz é mais do que um tom.
Eu sei, mas não faz a menor diferença.


17x16 Relicário

Imagem: TingTing Huang

me dá sua boca pra eu esconder dela
me dá seus olhos e tudo que já viram
me dá seus ouvidos pra eu te contar histórias
me dá suas mãos pra eu segurar
me dá seu rosto pra eu guardar na memória
me dá os seus cabelos pra eu adorar
me dá os seus dedos, com aliança ou sem, pra eu curar os cortes de papel
me dá os seus ombros pra eu encostar a boca
me dá seu pescoço com os pêlos por arrepiar com meu hálito
me dá suas pernas pra se embolarem nas minhas quando o frio chegar
me dá seus pés batendo no ritmo de uma música qualquer

entregue-se a mim, inteiro ou despedaçado.
em átomos, em cubos: mas eu só quero se for você.

17x15 Formato mínimo (ou "O corvo e a escrivaninha")

Imagem: TingTing Huang

O corvo: - Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo; a boca vermelha, o gosto dela na boca, o cheiro dela, os cabelos dela, o corpo dela: ela inteira, real como nunca havia sido antes.
Havia uma chance, talvez mais de uma, oculta como suas pernas, seus seios - com os quais ele havia sonhado mais de uma vez e... "Vá devagar", pensou, mas não controlava mais seu corpo. Seu corpo era dela, finalmente. Era ela, também, uma extensão.
- Eu te amo, eu te amo, eu te amo, dizia em seus cabelos. E os cabelos nada diziam. Mas ainda havia esperança.

A escrivaninha: "Mas que fome é essa?", pensava, "essa fome é de mim?" e ele a engolia aos poucos.
Ela teve medo de se deixar devorar, teve medo de machucá-lo, se conteve.
Eu te amo, ele disse. Eu te amo, ela quis dizer. Porque ela a amava ali, ela o amava assim, um amor instantâneo e finito.
Ele queria entrar no corpo dela pela boca  ela o mantinha levemente afastado, pra não magoar, pra não ter que dizer que já estava tão cheia de si que só cabia mais uma pessoa - que já tinha reservado lugar.
Não há vagas, ela piscou.
Mas ele, cego, não leu.
E ela, muda, nunca disse.

Qual é a semelhança, Jack, entre o corvo e a escrivaninha?

(Ele procurava uma princesa, ela procurava o próximo)

17x14 The Blower's daughters

Imagem: TingTing Huang

Sonhei com elas, de novo. Estão virando uma obssessão irritante.
"Tô grávida", eu dizia, e ele sorria. Seu sorriso me ofuscava e eu me escondia nas suas gengivas, me deitava com uma garotinha no colo: Teresa.
A Teresa de Coppola se (con)fundia com a Teresa de Kundera, eu passava a mãe nos seus cabelos louros e eles ficavam castanhos e eles ficavam castanhos; eu leria livros pra ela e diria que era linda.
Debaixo das cobertas, Maria me espreita. Parece esperta e um tanto dentuça e eu quero tocá-la, tão loira e tão morena, tão nós dois, nós quatro. "Vem cá, Maria, e me prometa que nunca vai confiar em ninguém que não exista", ela balança a cabeça. Assim, tudo vai ficar bem.
Bianca pede licença pra entrar, porque é feita de educação pura. Por favor, obrigada, com licença, sua cara rosada é sempre uma interrogação sutil. O rosto dela é o meu, feito uma tabula rasa em que desenharam os seus traços. Exceto os olhos - como em Harry Potter, puxaram os meus.
E lá vem ela, como se uma pessoa tivesse te arrancado os olhos e os cabelos e os estivesse usando. E os teus joelhos, e a tua pele, e a tua respiração.
- Deixa soltos os cabelos, Luz, assim.
Passo mal, sinto dores: dou à luz Cecília, os olhos tão claros que parecem cegos, buscando uma revelação.
Não é um nome, é um fardo, Cecília. Ela não fecha os olhos, nunca dorme, nunca chora.
"Está morta. Temos que enterrá-la", eles dizem.
Digo que não," como pode estar morta se ela come, se ela respira?"
E eles: "O corpo tem vida, a alma não. A luz se apagou"
Digo ela está viva, viva, não deixo.
E você vem e me toma a pequena Cecília, dizendo: "Acabou"

Acordei com a boca seca, Brasília me sugando e você perdido.
Acabou, mas

acho que, comigo, as coisas nunca têm fim.