Early Cuts: The Birthday Blues

 

Imagem: TingTing Huang


30. A idade do sucesso. 

3 meses antes, ou depois. 

Olho o espelho e impenso, rechaço a ideia de quem sou eu. 

30 anos e, aos 9, eu quero ser tanto, eu quero ser mais, eu queria não ser eu. 

2 semanas, um dia mais, um ano de vida (a menos). 

Que dia terrível pra se ter nascido, mês agourento e sujo. 

Não quero bolo, mas quero. Quero significado, significar, da meia noite às 23h59, eu quero explodir em fogos e queimar feito uma vela no escuro quente, sufocante. 

Meu Deus, eu quero morrer, e não morro. E, a cada segundo que passa, parece mágica, quero morrer mais e mais e sinto medo de morrer com a mesma intensidade. 

Brutal, duro. 

Guardo um segredo que só posso contar, quero dizer, talvez só eu, 
talvez nem eu saiba. 

Sinto que desejo algo, ou preciso desejar ou quero desejar e isso por si só já configura em desejo. 

Preciso acordar, mas não quero, mas e se

E se 30 for mesmo a idade -

48x09 Sharp Objects

 

Imagem: TingTing Huang

Ele desperta, no meio da noite (sim, ele também) e pensa, com calma e cuidado sobre a possibilidade de -

Feito um jorro de água, inicialmente fria, e depois morna, ele sente que é certo.

Lava o rosto e olha-se no espelho, toca o vidro. Gelado, ingênuo. 

E não se reconhece mais. 

Está cansado, cansou-se, da máscara, da farsa, da inverdade que pesa em casa passo e expressão dita ou não dita. 

Acendem-se as luzes, lá fora, ou amanheceu, e seus punhos continuam em riste, já não dorme, não come. 

Tem coisas, ele se lembra, que não tem mesmo jeito. 

Toma 01, 02 cps e mastiga, com força, até sentir o amargor, sob o olhar atento da esposa. Tão ansiosa, tão querida, tão (tola? crédula?). 

Respira fundo e força um sorriso, só mais um, ou outro, sentindo cada músculo rijo e dolorido, uma máscara aterradora. 

Pergunta-se se é possível mesmo viver dessa forma mais uns 30 ou 40 anos. Só mais um pouco, sem que ninguém saiba. 

A ideia causa taquicardia. Pensa nas noites insones e no medo. 
O medo é o pior. 

Engole comida quente sem sentir o gosto, sem prazer. Mastiga quantas vezes for preciso até engolir os pedacinhos. 

Mastiga. E sente medo. Mastiga. E sente medo. 

Medo que não passa nunca. 

Mastiga comprimidos. 
E sente medo. 

Ele só quer não sentir mais medo. 
As portas se abrem e fecham, e fecham, e fecham, até que não se abrem mais. 

Vira a chave na porta e, quando só, uma voz grita:

"Vai!"
"Coragem!"

Ouve baterem à porta, e sabe que o tempo urge, o corpo urge. 

Olha ao redor e se vê no espelho, aos 20 anos, mal se reconhece. Deixa de ser homem e se torna, de novo, bicho. Pronto para matar. 

"Coragem!"
Tenta lembrar o lema do príncipe do livro de contos de fadas que possuía quando era criança. A divisa do príncipe aventureiro. 
"Coragem!"

E, num rompante, ele finalmente insipira, expira, sangra e deixa cair no chão 
o caco de vidro,
o sangue,
o medo, 

a vida. 

48x08 Terrores Noturnos

 

Imagem: TingTing Huang

Durante a aula, me vejo nua. 

Sempre atrasada, sempre correndo. Fujo de homens e sombras e serpentes, em círculos, presa, num labirinto em Atlântida, me afogo.

E, de novo, ressuscito, a caminho de uma aula para a qual me atraso, ou entro na sala errada, completamente nua. 

Feito Sísifo rolando a pedra, de novo e de novo, eu me afogo sem conseguir sair da água, sem nem ao menos entrar. E não me importo porque qualquer um desses pesadelos é melhor do que

Cassandra. 

Acordo, no meio da madrugada, apavorada. 
Sonhei que você morria. 
Mas sonhei,
ou previ?

Sou capaz de prever o futuro? 
Não era, mas isso era antes. Isso era ontem. 
Agora, talvez, eu seja. E se for? 
3h da manhã, escuridão total fora da janela. 

Mas posso ligar? Devo ligar? 
E dizer o quê?
E fazer o quê se a ligação não for atendida? 
Se não chega resposta?

Sinto um aperto no peito, não consigo dormir, caminho pelo labirinto, desesperada, em busca de respostas, fazendo preces até

Pouco antes do amanhecer, insone, me deparo com uma linha de lã vermelha, cor de sangue viva, cintilhante, que brilha mesmo no escuro. 
Sigo a linha, sem medo e ela me leva por corredores estreitos, claros, e escuros também, chão de grama e pedra. Eu a sigo pra fora da minha mente e saio já de manhã, só pra te encontrar, vivinha da silva, sã e salva. 


Fev/2024

48x07 Pride and joy

 

Imagem: TingTing Huang

Eu quero acreditar quando você diz, eu quero. 
Quero me sentir bem. 
Quero agradecer sinceramente. 
Quero respirar aliviada, 
quero a parte que falta.
Quero ser fácil de encontrar aconchego, quero palavras que me deem colo.
Quero fazer e sentir. 

Não só dor, amor também. 
Quero sentir amor. 

Quero dormir cedo, e acordar tarde. 
Em paz. 

Quero a parte que me cabe, minha herança, meu tesouro. 
Eu quero mais do que migalhas. 

E eu quero dizer isso em voz alta. 
E quero te ouvir responder que eu mereço mais
que eu sou mais
que eu sou bonita e importante e valente e inteligente
que eu estou bem
que vou me sair bem
que eu te faço feliz
e que tudo bem ser como eu sou
que tudo bem ser quem eu sou

Eu quero ouvir você dizer. 

E, mais ainda,
quero acreditar quando você diz. 

48x06 Conundrum

 

Imagem: TingTing Huang

Ele me perguntou se eu me lembrava.
Eu disse que sim, mas não é verdade. 
Eu não me lembro. 

Durmo e acordo sem entender ainda quem sou, onde estou, como cheguei aqui, pra onde vou. 

Escapam entre os meus dedos os fragmentos escorregadios das memórias, e eu às vezes pesco um ou outro me vazando pelas orelhas, como se fugissem em desespero. Eu as engulo em seco, feito Cronos, e processo todas de forma distorcida e tola. 

Todos os dias, ele fala. 

Mas eu não sei mais responder, eu não sei falar com você, eu só sei falar o que precisam ouvir. 

Penso em números ordenados em fila e nos meus sonhos aparecem apenas os rostos de desconhecidos. 

Já não compreendo meus desejos, mas eu sei que existem, eu sei que eu existo. 

Mas não posso provar. 
Eu sei. 
Eu me lembro de existir. 

Eu não me lembro de nada. 

Early Cuts: Bubble

 

Imagem: Ting TingHuang

Sinto como se fosse explodir. Como uma bolha feita de material rígido e frágil, ao mesmo tempo. 

Sinto como se fosse, mas não explodo, nada me fere o bastante. 

E, pasme, eu quero explodir. 

Entendo que a dor única e breve de explodir não pode ser pior do que o que estou sentindo nesse exato momento. 

A tensão, a sensação de que a minha pele está tensionando ao máximo, dolorida, no ponto de ruptura. 

Eu sou invencível ou, talvez, só muito irrelevante. 

Uma besta magnífica. 

Early Cuts: Older

 

Imagem: TingTing Huang

"E Jacó disse ao seu pai: 
Eu sou Esaú, teu primogênito"

O terrível. 

Ele se senta em sua gaiola dourada, no mesmo lugar, há 16 anos. 

Espera e calcula, planeja o sonho com a retomada do trono e sua glória.

Ele pinta e escreve. 

Delira, só, embriagado ou sóbrio. 

Conversa, ás vezes, com seus carcereiros, sem saber se são reais ou produtos de sua loucura. 

Está louco, o Rei Louco. Às vezes, acorda no meio da noite, com mede de que o seu irmão, finalmente tenha vindo ou mandado alguém matá-lo. 

Passa dias sem comer, por medo do veneno inodoro. 

Não toca em nada que venha de fora, não abre as tintas e nem toca nos pincéis, tudo é venenoso, tudo é imundo. 

Depois, melhora. E come. 

E chora, e chama pelo nome do irmão, e pede perdão por seus crimes, recita uma lista e clama pela morte rápida, come tudo, bebe as tintas e evacua sangue, sem morrer. 

Nem mesmo a morte o deseja. 

E nem ele sabe o que desejar.