41x16 Down the drain

Imagem: Ting Ting Huang

Sonho que me afogo.

A água fria me abraça, eu afundo e não me debato: estou cansada.

Algo em mim, força vital, leoa, pantera de Rilke, se debate por detrás dos olhos, debaixo da pele, mas meu corpo, minha casa, meu cavalo, meu cão de caça, minha prisão me impede de me mover.

Meu corpo quer morrer.

Ele me diz que se cansou.
Da luta, do novo, da tristeza humana e da dor.
Mas eu não quero morrer.

Arranho as paredes da minha cela, eu não quero morrer.

Eu quero viver.
Quero acordar cedo e dançar a música do universo, deitar ao lado do homem que eu amo e dormir com o braço dele ao redor da minha cintura.

Eu quero viver pra superar dificuldades e ganhar.
Quero doces, salgados, chili, milho e massa.
Quero me apaixonar todos os dias por algo novo e secreto, como o gosto de azeite com batatas e pão com manteiga.

Quero ver crescimento e mudança, o natal e meu primeiro filho.

Mas meu corpo adormece e apaga de mim as memórias, desejos, sonhos e eu durmo,
afundo, lentamente,
enquanto meus últimos grãos de sanidade gritam
que eu acorde.

E eu acordo.

Eu acordo, e estou viva.

Mas a sensação não passou.
Afundo.
Eu quero viver,
mas meu corpo --

Como eu acordo
quando já estou acordada?

41x15 Happier trails

Imagem: TingTing Huang

Ela chegou pela manhã.
Maria levantou os olhos do livro e observou a recém-chegada, confusa, tropeçar e cair na grama úmida.

Não fechou o livro. Relia "Dom Casmurro" e não sabia ao certo quanto tempo teria para terminá-lo. Guiomar daria conta dela.

Dito e feito, Guiomar se aproximou dela e falou.
Quanto mais falava, mais animada ficava por ouvir a própria voz.

Caminharam, juntas, pela grama, num jardim onde o tempo não passa, não é parte da vida ou da morte, é feito de existência pura.

Ela perguntou sobre os filhos.

Guiomar explicou o que não pode ser explicado. Existe a morte. Existe a vida. E existe uma linha tênue entre as duas, uma corda bamba, e é nela que estamos agora. Estamos à espera.

Mas ela não entendeu.
Ou não queria entender.

Sentou-se no chão, e ficou em silêncio, olhando o nada.

As outras chegaram mais perto, pra olhar a recém-chegada.
Estela, de avental, veio correndo. Eva, parou de plantar mudas de plantas cheirosas e Antônia de conversar com Pedro.
E todas elas vieram ouvir uma história nova, oferecer consolo e cafuné.

Não é todo dia que chega gente nova.
Ainda mais alguém tão jovem.

Mas a moça nova não queria saber de conversar.
Ela só queria ficar em silêncio.
Ainda não tinha entendido
que passaria o resto da vida em silêncio.
Presa em si mesma.
E que precisava existir.

Precisava falar pra existir.

Mas ela não abriu a boca.

Ficou em silêncio a manhã inteira, como quem espera, como quem sabe.

E então, com o sol a pino, ela adormeceu
e nunca mais acordou.

Elas fizeram pra ela uma coroa de flores, e deitaram seu corpo em um lugar ensolarado, pra que o tempo a viesse levar aos poucos.

Maria levantou os olhos do livro, quando a cerimônia acabou e, por um instante, se fez a pergunta que fica a espreita de cada um dos que ali viviam, mas não soube a resposta, então baixou a cabeça e, finalmente, leu seu livro até o fim.

Quando sua hora chegasse, estaria pronta.

41x14 Pantera

Imagem: TingTing Huang

Abro os olhos, e a luz invade o corpo todo, acorda as células e a boca seca. Umedeço a língua, sinto o gosto das bactérias da manhã.

Tento olhar pela janela, o pescoço duro.

Frio.
O corpo todo arrepia, contorcido. Enrijeço os dedos com raiva, pisco os olhos secos.

Penso.

A mulher no leito da frente pisca, senta, fala uma fala embolada. Me irrita. Enrijeço os punhos.

Desvio o olhar para o teto branco e olho fixo até os olhos lacrimejarem.
Sinto falta da música, o som dos tambores, o choro de minha filha e o seu ato de sugar minha força pelo seio.

Minha cuidadora me toca, mãos geladas, me despe sem pudor.
Sinto meu próprio cheiro, de fezes e urina, e me envergonho, olho para o teto.
Ela passa a toalha pelo meu corpo, me arranha com o tecido áspero.

Engasgo de raiva e o ruído da traqueo me irrita, o falatório no quarto, o esteto gelado do médico, os cumprimentos vazios.

Uma mulher se inclina sobre mim e ela cheira a xampu.
Eu sinto falta de xampu.

Sonho, às vezes, com um banho quente de chuveiro, estender minhas mãos e lavar meus cabelos, o cheiro da limpeza, andar descalça pelos azulejos.
Nos meus sonhos, sinto o cheiro da pele da minha filha, suada, de bebê. A textura, o cheiro do leire, saliva, urina e fezes.

Me acordam, me despem, e me deixam nua no centro da sala, sem a minha permissão.

Eu dancei no topo do mundo sob as estrelas, entre homens que me desejaram e eu escolhi dentre eles o pai de minha filha, e o amei e entreguei a ele o meu corpo, minha alma.
Eu sei segredos obscuros sobre a lua, e a deusa negra que mora nos oceanos. E meu corpo tem o poder de mover as marés.

Eu tento dizer, mas ela não se importa.
E eu choro uma só lágrima salgada que ela deixa escorrer e secar, sem compaixão pelo que fui.
Pelo que eu poderia ter sido.
Pelo que eu ainda sou.

Porque eu sou.

Eu estou aqui.

Eu estou aqui.

41x13 The Alchemist Club

Imagem: TingTing Huang

Amar é ser responsável?
Quais são as regras pro amor?

Não existem regras, eu soube.

Cada pessoa é diferente da outra e duas pessoas combinam de diferentes formas.

Eu te amo.

Ama? E agora?
O que eu faço com isso?
Eu te amo de volta, mas e depois?
O que é meu e o que é seu?
O que é nosso?

O quanto eu devo saber?
O quanto eu devo contar?
Quão maleável tenho que ser?
Eu quero mudar?
Eu devo?
E o medo de que você vá embora?

Frio na barriga, meu estômago revira e se revolta contra a dependência do seu corpo e da sua companhia, eu te amo.

Crio uma bolha pra nós dois, mas o tempo escorre por algum poro e eu tenho medo de que o amor acabe e você queira ir embora e eu
e eu?

Byron disse: sobreviverei.
Eu estava sozinha antes de você e tudo bem ficar só, mas não quero ficar sem você.
Não tenho medo de ficar só, homem.
Mas tenho medo de ficar sem você.

O amor traz novas sensações antigas, conforto, abraço, segurança, calor, cafuné.
Mas também traz medo do futuro incerto.

Podemos sobreviver mais um mês ou seis?
Um ano ou dois? Bater recordes, dobrar metas?
Até você se formar?
E depois?

E depois
E depois

E depois

E depois
a gente vê o que faz.

41x12 O Drácula de Heber

Imagem: TingTing Huang

N/A.: Texto baseado em uma conversa genial com um ser humano genial.

- Eu tô quebrado? - ele pergunta.
- Não. Você não tá quebrado.

Não minto, e agora vejo isso.

É preciso que duas pessoas assumam os papéis do vilão e do mocinho, Drácula e Mina, pra que aconteça o que aconteceu. Estávamos dispostos a atuar, mas isso não nos torna permanentemente vilão e mocinha, vilã e mocinho.
Simplesmente somos.

Erros como o nosso são cometidos a torto e a direito e é preciso muita coragem pra não levar adiante por costume. E, homem-cavalo-leão, eu te desejo todo o amor do mundo, toda a felicidade no seu próximo papel, você me fez mais leoa, e eu me fiz mais humana, mais mulher.

Você limpa meu sangue da boca e segue seu rumo, que eu já segui o meu, eu já moro no abraço desse moço e a gente escolheu atuar numa história bonita e sem brigas, na qual a gente conversa e ele não se sente obrigado a ler minha mente, eu penso na raiva e percebo que ela é balela, ele espanta minha tristeza com as mãos e ela vai embora, se esconde pra voltar depois e ser afugentada de novo.

Eu não tô quebrada.
Só não tô bem.
Mas isso não significa que vou cometer os mesmos erros.

Não,
definitivamente não.

41x11 Bolsa térmica

Imagem: TingTing Huang

Caro Otto,

eu acordei de manhã.
Que situação perfeitamente banal.

Minha casa encontra-se naquele estado de caos costumeiro. Igualzinho à minha cabeça.

Descrevo:
Na sala, os livros de empilham na estante, aguardando que eu os leia, assim como os pensamentos complexos se empilham nas estantes da minha cabeça, aguardando que eu dê algum parecer sobre as questões complicadas da vida, sobre Claire, meu corpo, e todas as coisas simples que eu teimo em complicar.

Tento arrumar, colocar tudo na ordem, jogar no lixo o que não importa, mas você sabe que tenho dificuldade em me livrar de coisas velhas.
Então guardo nos cantos da mente pra rever depois, ou jogo em um saco, amarro e coloco debaixo da pia.

Alguns deles se espalham pelo chão do meu quarto, ocupando cada espaço e fazendo com que eu machuque os pés e tropece, eventualmente, em pensamentos intrusivos como um que tive noite passada, sobre estar feliz ou não.

Tento jogar alguns deles no armário, escondê-los, mas o armário explode, eu procuro algo útil pra usar pela manhã e, no processo, jogo todos os pensamentos que tinha guardado pra fora do armário, exponho coisas nas quais não preciso pensar e o caos reina.

Preciso dormir, preciso descansar, mas a cama e a cabeça estão cheias de coisas que eu simplesmente pego e coloco em outro quarto, esperando que o tempo ou algum ser mágico as faça desaparecer, mas elas continuam ali, à espreita, esperando que eu arrume a bagunça e coloque as coisas no lugar.

Insetos entram e fazem a festa, criam ninhos e teias, me envenenam os pensamentos mais profundos e eu chego naquele ponto em que eu não consigo entender de onde surgiu esse rancor súbito, magoo pessoas que nada tem a ver com o caos e depois sumo em meio aos objetos dispersos.

As pessoas me dizem coisas boas e eu rejeito todas, todas, sem hesitar. Minha mãe me liga no meio da noite e eu espero que ela diga algo ruim, eu quero me sentir pior, então não saio de casa, não como direito, e procuro uma briga com a última pessoa com quem quero brigar. Não tenho forças pra parar, e rejeito convites e pessoas, eu me rejeito e eu sei que isso é só o veneno do escorpião que matei correndo nas minhas veias.

Quero ficar sozinha e questionar tudo o que existe de bom, eu não sei ficar feliz.
Por que?

É, eu sei o que você diria, sei o que você faria.

Você invadiria a minha casa, quebraria as portas, estouraria minha bolha e me levaria pra ver o sol. Sem compromissos, sem afazeres.
Sem regras.
Sem pessoas pra quem acho que devo algo, sem culpa.
"Hoje é sábado", você diria, "não tenha medo".
E eu não teria.

Eu faço o melhor que posso.
Mas não hoje.
Hoje eu durmo,
e como besteiras, eu assisto séries e leio e fico só porque quero ficar só, eu quero ficar só.
Eu não quero festas,
eu não quero trabalhar,
eu não quero estudar.

Eu quero desligar meu celular e ler, e não complicar as coisas.

Você não tá aqui pra me levar pra ver o sol e a parte simples das coisas, então eu vou fazer isso, à minha maneira.

Espero que você esteja bem.
Saudável.
Bem alimentado.
Mentalmente são.
Inteiro.
Feliz.
Espero que esteja se sentindo útil, que seus cabelos estejam grandes e sua barba crescida.
Espero que esteja sendo amado pela pessoa certa, no momento certo.
Espero que você a ame.

Com amor,

B.

41x10 Christine

Imagem: TingTing Huang

Acordo suada, no meio da noite.
Não consigo mais dormir, ele me olha, entende, acaricia meu rosto.
Mas ele não pode fazer nada.
Ninguém pode fazer nada.

O telefone toca no meio da noite e meus pelos se eriçam na nuca.
Tremo.
Ele me abraça forte, empurra o celular, e me diz que não preciso ter medo.

Vai embora, eu fico só.
Tenho medo de sair de casa.
Ele me traz comida, bebida e amor, me diz que lá fora tá lindo, que tem gente que ele quer que eu conheça,
mas eu tô presa,
eu não posso sair
eu tenho medo
e eu tenho mais o que fazer.

Ele me beija,
me abraça,
me despe,
e eu não consigo me desligar do fato de que eu preciso terminar o que comecei.
Eu não posso comer,
não posso dormir,
ou ser
enquanto não terminar.
E eu só quero viver.

Choro, desesperada.
Eu só quero um tempo.
Pra ler, pra dormir, pra beijar meu namorado na boca e passar o dia na casa dele,
eu quero poder parar e respirar.
Tomar um sorvete, jantar com amigos.
Eu quero poder passar uma noite em paz.
Eu quero não me sentir fraca e inútil, eu quero andar de bicicleta no domingo de manhã
e comer algodão doce.

Quero parar.
E ficar parada.
Respirar.

Quero não me afogar em comida sempre que estiver assustada.
Quero meu corpo de volta,
quero minha sanidade,
quero meu tempo,
e minha bravura.

Ele me diz que acaba logo,
daqui a pouco estamos livres.
E eu quero acreditar, mas já faz tanto tempo, que eu nem sei mais como é a vida sem o medo de não conseguir.
Sem a certeza de que estou fracassando.
Eu quero acreditar, amor

Mas eu fecho os olhos pra descansar
o celular toca
e eu sei,
simplesmente sei,
que não vou conseguir dormir.