Imagem: TingTing Huang
Sim.
Ele fica de pé na minha frente.
É você?
Eu tô sentada na minha mesa cativa, não pedi nem água pra beber porque não sei se consigo segurar alguma coisa no estômago além de borboletas.
Trouxe comigo esse livro que não é muito pretensioso, nem muito tosco, do Doctorow (ok, um pouco pretensioso), tô vestida de azul, olhando pela porta feito uma maluca, mas você nunca entra.
Entram esses dois caras e é claro que você não traria um amigo. Porque não. Certo? Traria? Eu não sei.
Mas eles se sentam juntos, falam sobre garotas, milhões de garotas de coração partido e eu tô bem feliz por não ser uma delas.
Acho que tô adiantada.
Olho meu relógio de bolso, e ele tiquetaqueia como quem diz "ele não vem", mas aí o sininho da porta faz barulho de novo e entra esse cara, esbaforido, eufórico, ele começa a contar mil coisas, pede uns doces, e eu acho que é você, mas ele é tão, eu não sei, tão
enfim, tem algo de errado e eu não sei bem o que é, então eu o deixo ir e me sinto muito estúpida por isso.
Aí entra esse cara e ele ri muito alto, ele é incrível, brilhante e eu realmente gosto de vê-lo aqui, mas é isso? É essa a sensação certa? Por que eu estou na dúvida se é? Não era pra eu saber de imediato, simplesmente me jogar de cabeça, ou não é assim que funciona? Já funcionou assim alguma vez ou eu é que tô tentando enfiar regras novas no jogo mais antigo do mundo?
Sei lá, só sei que ele também vai embora, mas eu já tô me acostumando a olhar as costas das pessoas.
Aí de novo, ele, mas a gente já passou por isso, não?
Já? Tem certeza? Porque pode ter esse pequeno detalhe, essa coisa que você não percebeu e que vai fazer toda a diferença, que vai ser exatamente o que falta pra funcionar.
- Me conta uma história
E outra
E outra.
Mas não é isso,
o que eu quero é outra coisa.
E eu realmente queria que fosse fácil de verdade.
Mas também prefiro que não seja.
Tiro o relógio do bolso, vejo que você tá atrasado,
mas não dá pra esperar, sabe?
Eu tô faminta.
Peço pizza e como,
acompanhada,
depois sozinha
e, se você correr, prometo guardar um pedaço pra você.
40x09 Better than hugs
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Não gosto de abraços,
nunca gostei.
Meu melhor amigo tem essa teoria de que pessoas precisam de um determinado número de abraços por dia.
Eu não acredito nela.
Abraços guardam duas sensações distintas,
grandiosas demais pra desperdiçar com gente que simplesmente está de passagem
abraços são sobre chegada, reencontro.
Abraços são sobre partida.
Eu poderia distribuir beijos na boca,
mas jamais conseguiria distribuir abraços.
Não gosto que me toquem.
Distribuo abraços ébrios,
abraços de cumprimento,
pequenas demonstrações de carinho
mas abraços,
ah, abraços
esses eu guardo pra momentos específicos
Abraços daqueles em que se poderia ficar pra sempre
daqueles que a gente dá sabendo que nunca mais vai dar de novo,
abraços doloridos
que deixam parte da gente na outra pessoa.
Esse texto nem era pra ser sobre isso,
mas escrever sobre abraços me lembrou desse abraço específico
que eu te dei, sabendo que seria o último,
tão intenso e breve que eu chorei, mesmo sem saber ao certo o porquê.
Esse abraço me trouxe aqui, anos depois.
Meu Deus, quanta coisa mudou naquele abraço,
quantas escolhas foram feitas,
quanta dor
por causa de um abraço.
Então, como eu poderia sair por aí abraçando
a torto e a direito
se tanta coisa pode mudar a partir de um gesto?
Entende, agora?
Eu não quero o seu abraço,
nem o contato com a sua pele,
eu não quero o seu cheiro,
ou o que você acha que um abraço deve conter,
eu não quero dizer adeus
eu não quero dizer olá.
Eu não preciso de abraços,
eu preciso de pessoas que fiquem.
Teu abraço talvez não melhore o meu dia (já aconteceu, é verdade, mas pode piorar. Também já aconteceu),
não vai me dar vontade de estar aqui,
definitivamente, não vai significar que tudo está perdoado,
nem mesmo me fazer acreditar que você gosta de mim.
Alguns gestos são melhores do que abraços,
dizem coisas que abraços nunca dirão (muito embora eles digam muito)
e eu percebi isso quando olhei para a menina que gritava ao meu lado na sexta,
pelo mesmo objetivo que eu.
A presença dela, a existência, sua vontade, seu grito
me fizeram mais acolhida do que qualquer abraço aleatório e constrangedor.
O fato de que ela ficou, sem saber quem eu era,
pra lutar por nós duas significou muito mais pra mim do que contato físico significa.
E as pessoas não compreendem ainda.
Eu mesma demorei a entender
que o amor está nas entrelinhas.
Amor está numa viagem de carro de 10 minutos,
nos seus resumos de anatomia,
mentiras contadas sem razão,
mensagens que chegam no meio da madrugada,
uma coleção de garrafas,
no gosto do chocolate branco,
garrafas de água,
feijão.
Você não precisa me tocar pra que eu saiba.
E, por favor, não me toque sem a minha permissão.
E, por favor, não tenha medo de me tocar.
É complicado.
Mas simples.
Você vai saber, vai entender
quando chegar a hora.
Mas, até lá,
apertemos as mãos.
Não gosto de abraços,
nunca gostei.
Meu melhor amigo tem essa teoria de que pessoas precisam de um determinado número de abraços por dia.
Eu não acredito nela.
Abraços guardam duas sensações distintas,
grandiosas demais pra desperdiçar com gente que simplesmente está de passagem
abraços são sobre chegada, reencontro.
Abraços são sobre partida.
Eu poderia distribuir beijos na boca,
mas jamais conseguiria distribuir abraços.
Não gosto que me toquem.
Distribuo abraços ébrios,
abraços de cumprimento,
pequenas demonstrações de carinho
mas abraços,
ah, abraços
esses eu guardo pra momentos específicos
Abraços daqueles em que se poderia ficar pra sempre
daqueles que a gente dá sabendo que nunca mais vai dar de novo,
abraços doloridos
que deixam parte da gente na outra pessoa.
Esse texto nem era pra ser sobre isso,
mas escrever sobre abraços me lembrou desse abraço específico
que eu te dei, sabendo que seria o último,
tão intenso e breve que eu chorei, mesmo sem saber ao certo o porquê.
Esse abraço me trouxe aqui, anos depois.
Meu Deus, quanta coisa mudou naquele abraço,
quantas escolhas foram feitas,
quanta dor
por causa de um abraço.
Então, como eu poderia sair por aí abraçando
a torto e a direito
se tanta coisa pode mudar a partir de um gesto?
Entende, agora?
Eu não quero o seu abraço,
nem o contato com a sua pele,
eu não quero o seu cheiro,
ou o que você acha que um abraço deve conter,
eu não quero dizer adeus
eu não quero dizer olá.
Eu não preciso de abraços,
eu preciso de pessoas que fiquem.
Teu abraço talvez não melhore o meu dia (já aconteceu, é verdade, mas pode piorar. Também já aconteceu),
não vai me dar vontade de estar aqui,
definitivamente, não vai significar que tudo está perdoado,
nem mesmo me fazer acreditar que você gosta de mim.
Alguns gestos são melhores do que abraços,
dizem coisas que abraços nunca dirão (muito embora eles digam muito)
e eu percebi isso quando olhei para a menina que gritava ao meu lado na sexta,
pelo mesmo objetivo que eu.
A presença dela, a existência, sua vontade, seu grito
me fizeram mais acolhida do que qualquer abraço aleatório e constrangedor.
O fato de que ela ficou, sem saber quem eu era,
pra lutar por nós duas significou muito mais pra mim do que contato físico significa.
E as pessoas não compreendem ainda.
Eu mesma demorei a entender
que o amor está nas entrelinhas.
Amor está numa viagem de carro de 10 minutos,
nos seus resumos de anatomia,
mentiras contadas sem razão,
mensagens que chegam no meio da madrugada,
uma coleção de garrafas,
no gosto do chocolate branco,
garrafas de água,
feijão.
Você não precisa me tocar pra que eu saiba.
E, por favor, não me toque sem a minha permissão.
E, por favor, não tenha medo de me tocar.
É complicado.
Mas simples.
Você vai saber, vai entender
quando chegar a hora.
Mas, até lá,
apertemos as mãos.
40x08 Of other girls in different lights
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Gosto do escuro. O escuro na sua boca, o escuro da suas pupilas, o escuro dos cantos do seu corpo, nas notas da sua voz sussurrada e nos pigmentos da sua pele e pelos.
O tom violáceo da primeira luz da manhã que vejo de dentro do seu carro, hematomas e pequenos machucados de bater em portas, quinas, e sua língua roxa depois de beber suco de uva.
Gosto da luz das lâmpadas fluorescentes refletidas nas suas unhas, da luz e sombra das curvas do seu corpo.
Gosto das luzes que piscam quando você abre e fecha as mãos, as luzes no seu rosto, nos seus dedos, o gosto de luz na tua boca, joelhos e orelhas. A luz da tua voz
A sombra da tua ausência. A luz nas pontas dos teus dedos, no teu cheiro.
A escuridão das tuas mágoas, da parte do teu passado que desconheço.
Tem luz no calor do seu corpo, tem escuridão no aconchego do seu abraço, luz na textura da sua boca, luz nas conjunções, pronomes, no teu número, nas tuas vírgulas,
e tem escuridão na sua força, nos lugares onde o nós se esconde, onde o você e eu fica guardado.
Tem luz nas suas fotos infantis, na risada infantil que te vejo dar quando você se empolga, tem luz na maneira como você abre as portas, nos seus ossos.
Em tudo isso há sombra, ganhando espaço, ganhando voz, manchando nós dois.
Luz e escuridão se chocam, discutem, se abraçam, enquanto eu observo, assustada, maravilhada,
você me diz
- Acenda a luz. Eu quero ver a sua luz também.
Eu até tento, homem,
clic clac no interruptor,
clic clac,
mas a luz não acende
não tem luz.
Eu sou o que você vê.
Gosto do escuro. O escuro na sua boca, o escuro da suas pupilas, o escuro dos cantos do seu corpo, nas notas da sua voz sussurrada e nos pigmentos da sua pele e pelos.
O tom violáceo da primeira luz da manhã que vejo de dentro do seu carro, hematomas e pequenos machucados de bater em portas, quinas, e sua língua roxa depois de beber suco de uva.
Gosto da luz das lâmpadas fluorescentes refletidas nas suas unhas, da luz e sombra das curvas do seu corpo.
Gosto das luzes que piscam quando você abre e fecha as mãos, as luzes no seu rosto, nos seus dedos, o gosto de luz na tua boca, joelhos e orelhas. A luz da tua voz
A sombra da tua ausência. A luz nas pontas dos teus dedos, no teu cheiro.
A escuridão das tuas mágoas, da parte do teu passado que desconheço.
Tem luz no calor do seu corpo, tem escuridão no aconchego do seu abraço, luz na textura da sua boca, luz nas conjunções, pronomes, no teu número, nas tuas vírgulas,
e tem escuridão na sua força, nos lugares onde o nós se esconde, onde o você e eu fica guardado.
Tem luz nas suas fotos infantis, na risada infantil que te vejo dar quando você se empolga, tem luz na maneira como você abre as portas, nos seus ossos.
Em tudo isso há sombra, ganhando espaço, ganhando voz, manchando nós dois.
Luz e escuridão se chocam, discutem, se abraçam, enquanto eu observo, assustada, maravilhada,
você me diz
- Acenda a luz. Eu quero ver a sua luz também.
Eu até tento, homem,
clic clac no interruptor,
clic clac,
mas a luz não acende
não tem luz.
Eu sou o que você vê.
40x07 Mojo
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Perdi.
Acabou.
Não consigo mais, aconteceu o que eu mais termia: perdi o jeito pra escrever, pra falar.
Começou com uma dissociação curta entre o meu pensar e o meu falar, parei de escrever, ficava cansada, parei de ver a poesia nas coisas, parei de rir.
Eu não sei rir.
Como posso fazer rir?
Eu sou incapaz de achar graça nisso, incapaz de qualquer coisa, fui carimbada com a incapacidade de fazer, de agir, tô com medo, apavorada de não saber mais fazer a única coisa que eu sei fazer.
E ninguém vê, ninguém percebe que eu não sou.
Eu não tô "não bem", eu não sou
Eu tô enlouquecendo, escrevendo furiosamente, um monte de bosta desconexa que não faz nenhum sentido, que eu não tô conseguindo fazer com que faça sentido.
Então é isso? Eu acordo um dia e acabou, simplesmente foi embora porque eu não fui boa e disciplinada o bastante, porque eu não soube usar direito?
Fico parada na frente do computador por horas, paralisada,
eu não consigo.
Acabou.
Sufoco um pouco e me dá vontade de chorar, mas eu não consigo.
Tô muito assustada, muito desesperada até pra isso.
Talvez até um pouco conformada, como se eu sempre tivesse sabido que eu não era boa o bastante. É claro que eu não era.
Certo?
- É isso o que você acha? - Felipe me pergunta, de volta do mundo dos mortos.
Eu não sei.
- Você sabe. Tem muitas coisas acontecendo. Muitas coisas te sufocando. Mas eu sei o que dá pra fazer com essas coisas. Dá pra transformar em palavras, de todos os tipos e tamanhos. Dá pra transformar em mim, me trazer de volta, não me deixe morrer de verdade.
Acendo as luzes, pego papel e caneta.
Eu tô escrevendo pra salvar minha vida, porque é tudo o que eu sei fazer,
eu tô escrevendo pra trazê-lo de volta à vida, de uma vez por todas,
eu tô escrevendo, mesmo que ninguém leia, mesmo que só uma pessoa leia, tô escrevendo pra fazer a diferença na vida de uma só pessoa que seja.
Tô escrevendo pra me sentar no metrô na frente de uma garota lendo algo com meu nome na capa.
Eu tô escrevendo porque sinto as histórias escorrerem pelos meus dedos, porque não consigo me conter, porque não consigo mais segurar os gritos dentro da minha cabeça.
Talvez eu não seja mesmo boa,
talvez eu tenha mesmo perdido meu mojo,
mas eu não vou parar.
Eu vou continuar escrevendo, dia e noite, em cadernos, guardanapos, atrás das provas, durante as aulas, eu vou contar as histórias que coleciono, eu vou escrever nas paredes, nas roupas, até que não haja mais nada pra escrever.
Por mim,
por você,
enquanto eu conseguir.
Perdi.
Acabou.
Não consigo mais, aconteceu o que eu mais termia: perdi o jeito pra escrever, pra falar.
Começou com uma dissociação curta entre o meu pensar e o meu falar, parei de escrever, ficava cansada, parei de ver a poesia nas coisas, parei de rir.
Eu não sei rir.
Como posso fazer rir?
Eu sou incapaz de achar graça nisso, incapaz de qualquer coisa, fui carimbada com a incapacidade de fazer, de agir, tô com medo, apavorada de não saber mais fazer a única coisa que eu sei fazer.
E ninguém vê, ninguém percebe que eu não sou.
Eu não tô "não bem", eu não sou
Eu tô enlouquecendo, escrevendo furiosamente, um monte de bosta desconexa que não faz nenhum sentido, que eu não tô conseguindo fazer com que faça sentido.
Então é isso? Eu acordo um dia e acabou, simplesmente foi embora porque eu não fui boa e disciplinada o bastante, porque eu não soube usar direito?
Fico parada na frente do computador por horas, paralisada,
eu não consigo.
Acabou.
Sufoco um pouco e me dá vontade de chorar, mas eu não consigo.
Tô muito assustada, muito desesperada até pra isso.
Talvez até um pouco conformada, como se eu sempre tivesse sabido que eu não era boa o bastante. É claro que eu não era.
Certo?
- É isso o que você acha? - Felipe me pergunta, de volta do mundo dos mortos.
Eu não sei.
- Você sabe. Tem muitas coisas acontecendo. Muitas coisas te sufocando. Mas eu sei o que dá pra fazer com essas coisas. Dá pra transformar em palavras, de todos os tipos e tamanhos. Dá pra transformar em mim, me trazer de volta, não me deixe morrer de verdade.
Acendo as luzes, pego papel e caneta.
Eu tô escrevendo pra salvar minha vida, porque é tudo o que eu sei fazer,
eu tô escrevendo pra trazê-lo de volta à vida, de uma vez por todas,
eu tô escrevendo, mesmo que ninguém leia, mesmo que só uma pessoa leia, tô escrevendo pra fazer a diferença na vida de uma só pessoa que seja.
Tô escrevendo pra me sentar no metrô na frente de uma garota lendo algo com meu nome na capa.
Eu tô escrevendo porque sinto as histórias escorrerem pelos meus dedos, porque não consigo me conter, porque não consigo mais segurar os gritos dentro da minha cabeça.
Talvez eu não seja mesmo boa,
talvez eu tenha mesmo perdido meu mojo,
mas eu não vou parar.
Eu vou continuar escrevendo, dia e noite, em cadernos, guardanapos, atrás das provas, durante as aulas, eu vou contar as histórias que coleciono, eu vou escrever nas paredes, nas roupas, até que não haja mais nada pra escrever.
Por mim,
por você,
enquanto eu conseguir.
40x06 Nox
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Apagam-se as luzes.
Não durmo.
É maio, como poderia?
Existe fome no mundo, pobreza, homens que matam mulheres, dor e futuros incertos, oportunidades perdidas, um mundo de possibilidades que me mantêm alerta, pronta pra luta.
Farejo o ar, sinto o cheiro de álcool e pílulas, sinto o cheiro de sol, cabelos queimados, o cheiro de maio, de sangue quente, recém saído do corpo, a molhar a cama e o piso de azulejos brancos.
É maio, amo quem não deveria amar, odeio quem não deveria odiar.
Afio facas de trinchar, espero a guerra, eu não quero brigar e meu corpo não aguenta mais esperar, tenso, pela batalha. Meu sangue pede o seu sangue, minha lâmina pede a sua pele, meus dedos se cortam no aço fino dos segredos que eu escondo.
É maio.
Mostro as pernas recém-cortadas, frescas, escondo as marcas sob tão pouca roupa que elas se tornam invisíveis, que eu me torno invisível. As pessoas não querem ver o que as pessoas não querem ver.
Apago as luzes de Maio e espero, no escuro, as feridas escorrendo ácido, queimando a pele no trajeto até o chão.
Apago as luzes de maio,
apago as luzes de maio
e espero que as luzes de junho se acendam rápido, antes que algo pior aconteça.
Nox.
Lumos.
Apagam-se as luzes.
Não durmo.
É maio, como poderia?
Existe fome no mundo, pobreza, homens que matam mulheres, dor e futuros incertos, oportunidades perdidas, um mundo de possibilidades que me mantêm alerta, pronta pra luta.
Farejo o ar, sinto o cheiro de álcool e pílulas, sinto o cheiro de sol, cabelos queimados, o cheiro de maio, de sangue quente, recém saído do corpo, a molhar a cama e o piso de azulejos brancos.
É maio, amo quem não deveria amar, odeio quem não deveria odiar.
Afio facas de trinchar, espero a guerra, eu não quero brigar e meu corpo não aguenta mais esperar, tenso, pela batalha. Meu sangue pede o seu sangue, minha lâmina pede a sua pele, meus dedos se cortam no aço fino dos segredos que eu escondo.
É maio.
Mostro as pernas recém-cortadas, frescas, escondo as marcas sob tão pouca roupa que elas se tornam invisíveis, que eu me torno invisível. As pessoas não querem ver o que as pessoas não querem ver.
Apago as luzes de Maio e espero, no escuro, as feridas escorrendo ácido, queimando a pele no trajeto até o chão.
Apago as luzes de maio,
apago as luzes de maio
e espero que as luzes de junho se acendam rápido, antes que algo pior aconteça.
Nox.
Lumos.
40x05 Amok
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
Acuados, perseguidos, famintos, pressionados,
corremos.
Enlouquecidos, matamos às cegas, derramamos sangue inocente, bebemos à saúde de velhos demônios há muito guardados em baús.
Rasgamos o peito de amigos e inimigos, irmãos e filhos, sem pudor algum, aleatoriamente.
É tarde,
corremos, armados até os dentes, insatisfeitos e assustados, mortos de medo da morte e da vida.
Uma garota de vermelho me arranca um olho pra que eu nunca mais durma e eu te rasgo no meio, eu te rasgo em mil pedaços e tomo banho no seu sangue com cheiro de limão.
Sangro, sangue verde, ácido, e pulo obstáculos, urro de dor e de vontade, sede de sangue, medo do frio, instinto puro e febril, pavor de ficar só, teu nome me cega e eu percebo que te esqueci por uma hora inteira, um dia inteiro em que estive correndo e calando os gritos das pessoas com murros e mordidas, com meu sangue.
Eu me sento, ao final do dia, ofegante, suja de sangue azul e vermelho escuro, roxo, e assisto ao nascer do sol, outro sol,
só mais um sol,
sob a montanha de corpos de pessoas que eu não me lembro de ter ferido.
Acuados, perseguidos, famintos, pressionados,
corremos.
Enlouquecidos, matamos às cegas, derramamos sangue inocente, bebemos à saúde de velhos demônios há muito guardados em baús.
Rasgamos o peito de amigos e inimigos, irmãos e filhos, sem pudor algum, aleatoriamente.
É tarde,
corremos, armados até os dentes, insatisfeitos e assustados, mortos de medo da morte e da vida.
Uma garota de vermelho me arranca um olho pra que eu nunca mais durma e eu te rasgo no meio, eu te rasgo em mil pedaços e tomo banho no seu sangue com cheiro de limão.
Sangro, sangue verde, ácido, e pulo obstáculos, urro de dor e de vontade, sede de sangue, medo do frio, instinto puro e febril, pavor de ficar só, teu nome me cega e eu percebo que te esqueci por uma hora inteira, um dia inteiro em que estive correndo e calando os gritos das pessoas com murros e mordidas, com meu sangue.
Eu me sento, ao final do dia, ofegante, suja de sangue azul e vermelho escuro, roxo, e assisto ao nascer do sol, outro sol,
só mais um sol,
sob a montanha de corpos de pessoas que eu não me lembro de ter ferido.
40x04 Vaca Nova
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garota solteira procura,
Imagem: TingTing Huang
- Oi
- Oi
Alto e claro, demonstro um desinteresse que não sinto, mesclado com uma gotinha só do interesse que sinto de verdade, 1 gotinha por minuto, diluída em um mar de desinteresse falso.
Minhas pernas viram geléia quando você me abraça.
Me pergunta se tô bem, eu não sei o que responder, digo que sim, e você.
Aqui é o mundo real, eu sinto medo do que vem depois, mas conto com outros subterfúgios, meu corpo, meu cheiro, a proximidade da tua boca do meu ouvido.
Sinto falta da sua boca e dói de leve cada vez que você se afasta.
Você diz que a gente se vê, eu congelo por dentro, mas tento bancar a desinteressada, digo "ok".
Mas não é ok.
Me dá a mão, vamos sair daqui e conversar em um lugar onde eu posso te ouvir falar da vida, me explica o que houve, me beija.
Mas não posso demonstrar isso, posso?
Não, eu fico no "ok", vou fingir não te procurar com os olhos, fingir não estar à espera, não estou, não quero estar.
Você vai se afastando devagarinho e eu podia dar de ombros, eu podia deixar pra lá. Mas eu me cansei de jogos, dicas, testes, teorias, quero um amor sem regras, erro e acerto, quero menos mentiras, ligar no dia seguinte sem que pareça que eu sou uma psicopata, pra dizer que gostei.
Faço menção de dizer a você o que tá entalado aqui dentro, homem, eu ando na sua direção, 1,2,3 passos e, a cada um deles, a coragem diminui, duvido do que sinto, do que você sente, será que vale a pena, me sinto meio boba e, quando finalmente me aproximo,
você sorri,
eu sorrio
e desvio meu caminho para a direção do banheiro mais próximo,
onde vou lavar as mãos de todas essas ideias terríveis
e fingir que nada aconteceu.
- Oi
- Oi
Alto e claro, demonstro um desinteresse que não sinto, mesclado com uma gotinha só do interesse que sinto de verdade, 1 gotinha por minuto, diluída em um mar de desinteresse falso.
Minhas pernas viram geléia quando você me abraça.
Me pergunta se tô bem, eu não sei o que responder, digo que sim, e você.
Aqui é o mundo real, eu sinto medo do que vem depois, mas conto com outros subterfúgios, meu corpo, meu cheiro, a proximidade da tua boca do meu ouvido.
Sinto falta da sua boca e dói de leve cada vez que você se afasta.
Você diz que a gente se vê, eu congelo por dentro, mas tento bancar a desinteressada, digo "ok".
Mas não é ok.
Me dá a mão, vamos sair daqui e conversar em um lugar onde eu posso te ouvir falar da vida, me explica o que houve, me beija.
Mas não posso demonstrar isso, posso?
Não, eu fico no "ok", vou fingir não te procurar com os olhos, fingir não estar à espera, não estou, não quero estar.
Você vai se afastando devagarinho e eu podia dar de ombros, eu podia deixar pra lá. Mas eu me cansei de jogos, dicas, testes, teorias, quero um amor sem regras, erro e acerto, quero menos mentiras, ligar no dia seguinte sem que pareça que eu sou uma psicopata, pra dizer que gostei.
Faço menção de dizer a você o que tá entalado aqui dentro, homem, eu ando na sua direção, 1,2,3 passos e, a cada um deles, a coragem diminui, duvido do que sinto, do que você sente, será que vale a pena, me sinto meio boba e, quando finalmente me aproximo,
você sorri,
eu sorrio
e desvio meu caminho para a direção do banheiro mais próximo,
onde vou lavar as mãos de todas essas ideias terríveis
e fingir que nada aconteceu.
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