32x02 Awakenings

Imagem: TingTing Huang

Chuck ao telefone, um voz baixa, baixinha, rouca.
- Oi.
Fico com vontade de chorar.
- Onde você esteve?
Ele não responde, não sabe.
- Tem mais gente aí?
- Tem. Tá todo mundo aqui. Sentimos sua falta.

Eu estive perdida.
Eu estou perdida.
Andei tentando me anular, ser alguém mais normal, mais adequada às necessidades das pessoas, dos contextos.
Essa não sou eu.

- Eu ainda não tô bem. Mas eu vou ficar. Eu vou ficar bem. E eu vou ver vocês de novo.
Uma voz de mulher invade meus ouvidos: June.
- Não se preocupe com a gente. Você precisa ficar bem. Inteira. Sã e salva.
- Eu preciso de vocês. Precisamos ficar juntos.
- Nós sempre estamos juntos. Não importa o que aconteça, nunca vamos te deixar sozinha. Pode parecer esquisito quando falo assim, mas nunca vamos te deixar. Nunca, nunca.
- Mas eu não sei quanto tempo, eu não sei quando vou ficar bem --
- Você pode vir a qualquer hora. Vamos estar aqui, ok? Sempre.
- Sempre.

Eu vou ficar bem.
E volto pra vocês, melhor e mais forte.
Eu volto.
Eu sempre volto.
Sempre.

32x01 Loud and Clear

Imagem: TingTing Huang

A memória falha, me recordo de peças soltas.
Minha camiseta da Marilyn, saia nova - azul.
E você me dizendo que ia viajar.
Entrei em pânico.
Quando foi mesmo que eu decidi que não iria esperar porra nenhuma, que iria à luta, dar a cara a tapa pra você bater com um grande não (ou um grande sim)?
Tinha recém decidido não fazer a mínima ideia do que ia fazer.
Aí te vi, e eu soube,
que nada nem era mais uma opção.

Escovei os dentes,
comuniquei o fato ao grande conselho de amores da minha vida,
e te mandei mensagem.

A tarde inteira foi passada assim, as tripas se sacudindo, eu nervosa, olhando o celular a cada segundo, sem saber o que fazer, o que pensar.

Fui pra casa.
Tomei banho, comi, tentei ler, e li.
Estômago furioso.
Levei minha irmã, busquei minha irmã.
E você nada de chegar.

Eu queria gritar, gritar e rir e chorar.
Ao invés disso, dancei, na sala escura.
Dog days are over.
Shot at the night.
Little Lion Man.
Babel.

E tua mensagem chegou.
Fui pra tua casa.
E tinha uma mulher de robe vermelho na portaria.
Que loucura.
Eu pensei em dar meia volta,
mas toquei a campainha.

E você desceu.

E você desceu.

E você desceu.

Uau.

Todas as palavras foram embora, e eu fiquei boba. O cérebro derreteu, eu só conseguia rir e olhar pra sua cara.
Aí você me perguntou se eu queria água.
Mas eu queria ar.
Eu queria palavras.
E elas não vinham.

Conversamos amenidades.
(Obrigada)
E eu fui relaxando aos poucos,
lentamente,
as palavras foram voltando, meio arredias,
e saindo aos pouquinhos.

Arrisquei um "Eu ainda gosto de você".

E elas jorraram de volta,
o ar voltou,
e eu soube que arriscaria de novo e de novo e de novo.

Sim, não, talvez.

Eu disse.
Eu tive coragem.

Uau.

Early Cuts: Meth

Apenas mais uma tarde com L. 2013, mas poderia ser 2010.

("Abra bem a boca e feche os olhos")

Corro.
Está tudo escuro, árvores e folhas secas pra todo o lado.
Tem algo de estranho e familiar nessa paisagem. Algo que não consigo precisar. É tudo tão vívido. Até a escuridão é diferente. E o cheiro.

Do que é que eu estava correndo mesmo?
Não me lembro.

Alguém grita algo em alemão, em algum ponto atrás de mim, o som distante. Mais gritos seguem, gritos e risadas.
Me afasto do som.
Não sei o que está acontecendo, como cheguei aqui. Mas, de alguma forma, sei o que está pra acontecer. Preciso chegar à rua.

Corro.
Passo por árvores e prédios, parques abandonados, tudo escuro demais e, ao mesmo tempo, não tão escuro que eu não possa enxergar.
A rua, enfim. Iluminada, deserta: Brasília.

E agora?

Espero.
Nada acontece.
Volto na direção dos risos, agora cada vez mais altos.

Crec. Crec. Crec. Crec. Aguço os ouvidos.
Alguém encapuzado se aproxima, aparentemente sem me perceber.
Paro e observo.
Reconheço esse andar, reconheço esse corpo. "É um de nós?", e meu cérebro logo rejeita a ideia.
Ele se aproxima dos risos. Diminui o passo. Para.
Abaixa o capuz, tira os fones de ouvido. Parece atento aos ruídos agora.
Prendo a respiração.
Ele se aproxima, está quase lá.
Quando dou por mim, já estou empurrando-o de encontro à coluna de um prédio.
- B.? O que é que você está fazendo aqui? O que está acontecendo?
- Você tem que ir embora.
- Por que? O que essas pessoas estão fazendo?
- Você tem que --
Percebo que ele está assustado.  Eu nunca o vi assim. É tão surreal.
- Eu não posso responder. Se eu te dissesse que, o que quer que esteja acontecendo lá não é para os seus olhos, você ficaria satisfeito?
- Não.

Nós estamos muito próximos, muito próximos, próximos demais. Meu coração vai explodir a qualquer momento.
- Você tem que ir.
- Eu não vou --
Ele para de falar e olha para o meu pescoço e ombros.
- Isso é sangue?
Respondo, sem hesitar, olhando-o nos olhos:
- É tinta.
- Não parece tinta. B., você está bem?
Não respondo.

- Bels, o Alex está te procurando e você ---
A voz de Ulrika estaca.
- Quem é ele?
- Ninguém. - respondo, sem olhar pra ela.
- Oi, ninguém. Qual é o seu nome?
- Ulrika, não...
- Holden. - ele diz.

Ulrika olha pra mim, olha pra ele e eu percebo que ela está alta demais pra controlar a própria língua. Sei que ela não vai nem mesmo se dar ao trabalho de falar no nosso horrível código alemão.
- Você! O terceiro cavaleiro! Por que você o trouxe até aqui?
- O terceiro cavaleiro? O que é isso?
- É você, você é o terceiro cavaleiro, você sabe, --
- Ulrika, já chega.
Ela percebe meu tom de voz e dá de ombros.
- Ele está te chamando.
-Ele quem? - pergunta Holden.
Minha cabeça dói. Isso não podia acontecer hoje.
- Ulrika. Me ajude.
- Ok. Eu digo que não te encontrei. Bom te conhecer, cavaleiro.
Ela sai, saltitando.

- O que ela quer dizer com isso? Terceiro Cavaleiro?
Suspiro. Tem tanta coisa a ser explicada, tanta coisa que eu não gostaria de explicar.
- Sabe, eu digo a ela que ela é bonita demais pra que alguém ouça o que ela diz. Acho que ela acredita nisso.
- Tá. Me explica. O que está acontecendo?
- Você tem que ir.
- Ok. Pare de dizer isso. Por que você está suja de sangue? E por que eu ouvi gritos lá dentro? O que essas pessoas--
E David o interrompe, falando em código, do seu jeito perfeito:
- Eu não acreditei quando a Ulrika contou. Ele é seu amigo?
- Não, David. Por favor.
- Bels, você tem que ir. Ele está te chamando.
- O que ele quer? Eu já fiz tudo o que tinha que fazer.
- Ele quer você.
Suspiro. Tenho que ir.
Olho nos olhos atônitos de Holden, totalmente perdido na nossa conversa enrolada.
- Você leva ele embora? Agora.
- Claro.
Eles se afastam, e eu sei que deveria voltar, mas algo me diz pra ficar de olho nos dois. De algum jeito, consigo ouvir a conversa dos dois, dentro da minha própria cabeça.

- Então, você é amigo da B.?
- Sou.
- Pode me dizer o que está acontecendo?
- Por que você não pergunta pra ela? Ela é sua amiga, não é?
Ele não responde.
- Deixe-me adivinhar: ela ignora você. Quando conversam, ela é rude sem razão. Nunca te olha nos olhos. Fala com todo mundo, menos com você. Cheguei perto?
- Ela... Ela age dessa forma.
- É claro que age.
- Por que?
- Por que o quê?
- Por que ela age assim?
- Hm. Eu não gosto nada do seu nome.
- O quê?
- Seu nome. Você é polonês?
- O quê?
- Polonês, alemão
- Eu não sei, talvez, meu bisavô --
David dá aquela risada esquisita que ele sempre dá em momentos aleatórios.
- Vou te dizer uma coisa: Corra. Se ela vier na sua direção, corra. Não fale, não escute, não pergunte.
- Não pergunte. Ela me disse a mesma coisa outro dia.
- Disse? E o que você fez?
- Continuei perguntando.
- Por que?
- Eu estava curioso. Sobre ela.
- Então esqueça o que eu disse. Você já era.
- O quê?
- Vá pra casa daqui. Não volte pra lá e esqueça o que aconteceu aqui. Vá pra casa ou ---

Alguém toca o meu rosto com a mão gelada, me assustando.
O som da voz de David morre aos poucos e é substituído pela voz de L.

- B? B, você tá legal?

Sinto tapinhas no meu rosto. A noite sai de foco e eu me dou conta de que é dia e estou deitada no forro de sofá florido da casa de L. , que me observa. Estou fraca, febril, meu corpo todo dói.

- E agora, o que houve? - ela pergunta.
- Ele foi pra casa. Mas ele sabe. Ele sabe de tudo.

Ela se senta do meu lado, acaricia minha cabeça e suspira:
- De novo. Abra a boca e feche os olhos.

31x15 Açúcar ou adoçante? (season finale)


Imagens: TingTing Huang

(Duas imagens finais no álbum. De certa forma, andei me planejando pra usar uma dessas imagens no season finale. Mas eu só percebi agora que são imagens pra finais completamente distintos. Pensei no final de hoje e fui procurar a melhor imagem. Daí percebi que as duas eram sobre esse episódio. Nem uma, nem outra: as duas)

Acordei cedo, me sentindo vazia: normal. Cansada.
Lavei o rosto, e meu coração já acelerava: tinha sonhado com ele. E foi um sonho tão bonito. E tão triste.
Peguei o celular, me fingindo de descrente, pra não me decepcionar se ele não tivesse mandado mensagem. Ele tinha.
E eu quis tanto responder, e recomeçar o diálogo, um diálogo infinito como os que costumávamos ter, sem assunto fixo, que durasse dias e dias, mil e uma noites, e que me impedisse de cortar sua cabeça, que me impedisse de tomar qualquer decisão, de seguir em frente, que me mantivesse aqui. 
Mas eu não quero ficar aqui. 
Eu não quero ficar assim. 

Ontem, eu estava bêbada, mais bêbada do que podia entender, mas mais sóbria do que quando bêbada, e percebi, de novo, que não tá legal assim. 
Não dá mais.

Quarto escuro, cheirando a sono, umidade e qualquer coisa que eu não sei definir. 
Todas trabalham, incessantemente, tecendo destinos, desfazendo amores, criando caos, dando sentido. 
Sentada no chão, eu observo, por um tempão, enquanto as vidas tomam forma. Tomam a forma de um beijo, uma dança, uma declaração de amor, dois amigos que se encontram e têm uma conexão imediata, cabelos crescidos, amores que acabam, fios dourados, fios pretos, tristeza enorme que as pessoas escondem bem, gente que fica amiga pra sempre, gente que não quer sair de casa, pessoas que são perfeitas umas pras outras, mesmo que não saibam disso ainda, e o momento em que elas descobrem, gente que não tá sempre feliz, gente que pode ficar feliz, gente que volta a ficar junta, gente que se gosta de verdade desde sempre, bebês, e aquele reflexo prateado de quem tem toda uma vida pela frente. 
É lindo. 
É o trabalho mais lindo que já vi. 
Arte pura, crua, 
e eu choro, choro, por poder ver isso.
Eu estou viva. Esse vazio é só um vazio. É a oportunidade de colocar tudo isso pra dentro. 

De costas pra mim, a Mãe diz
- Você vê, agora?
E eu não consigo falar, soluço sem parar, sem conseguir respirar direito, encolhida no canto. 
- Eu sei o que você veio fazer aqui. Eu sei o que você quer saber. E eu vou te dizer o que você quer saber. Você está esperando. Pela grande mudança de Maio. 

A donzela, cabelos ruivos longuíssimos e brilhantes, senta-se de frente pra mim, olha pra mim sem olhar pra mim, me aponta os buracos vazios nas órbitas: 
- Ele está assustado, desesperado, sente-se abandonado, preso a esse passado que insiste em voltar. E você, eu consigo sentir o gosto da desilusão, das tentativas fracassadas em preencher esse espaço. 
Ela passa a mão esquerda sobre as órbitas vazias e um olho surge, brilhante, enorme, assustador.
- Eu posso ver afeto, amizade, lealdade. Eu posso ver esperança. Vai ficar tudo bem. 

E a voz infantil me chega aos ouvidos
- Mas isso não quer dizer que vocês vão ficar juntos. 

Olho de volta para a donzela, mas ela já não vê nada, as órbitas escuras feito a noite. 

- Você é inflexível demais, sussurra Morta, no meu ouvido. Precisa usar seu desinteresse, sua dissimulação. Eu vejo verdades dolorosas, dualidade. Eu vou te dizer, a mudança é a resposta. Rápida, inevitável. Você precisa mudar. E nós duas sabemos, você não vai. Então, vou te dar um conselho: ouse. Seja feliz, expresse seus sentimentos. 

E a Mãe, com sua voz poderosa, me manda levantar do chão
- Não. Eu vou te dizer exatamente o que você vai fazer se quiser sair disso. Eu vou te dizer que você não precisa mais disso. Acabou. Você é impaciente, vive se reprimindo, se descontrolando. Mas não entende que os obstáculos te farão forte, que não pensar tanto te fará seguir adiante. Você tem o poder de mudar qualquer situação. Só precisa ficar parada. Você é perfeita. Eu vi quando cada pensamento seu nasceu, eu vi seus sentimentos tomarem forma, eu teci cada uma das suas lágrimas. E eu posso dizer, muitas passaram e muitas mais virão. Você vai chorar e sorrir, e chorar de novo. Espere sempre o melhor, essa esperança que você teima em negar: mantenha-a segura. 

E a donzela, como quem lê minha mente:
- Não, você não pode ter as duas coisas. Não pode mudar sem mudar. Isso é Maio. Escolhas das quais não se pode fugir. Da mesma maneira que você resolveu que queria tentar, da mesma maneira que resolveu que não queria mais magoá-lo, vai ter que escolher de novo. E não, não me venha com esperas, com não saber como ele se sente, porque essa é sua escolha. Até a maneira como você vai decidir, os elementos norteadores da decisão, já é uma escolha. Você veio até aqui pra testemunhar a grande mudança de Maio. 
Ela segura minha mão e eu sinto algo, um pedaço de papel, uma lembrança.
- Não existe grande mudança, B. Nunca existiu. Maio traz grandes escolhas. Até hoje, foi você quem escolheu mudar. O que acontece, a partir de agora, é decisão sua. Sem sinais, sem cartas marcadas, as músicas não te darão a resposta certa, nem nós, seus amigos ou as estrelas. Não escolher nada também é escolher. 
Você precisa ir, agora. Seguir seu próprio caminho. Escolher seu próprio caminho.

E viver com as consequências dele.

31x14 303

Imagem: TingTing Huang

- Eu estava apaixonada.
Pompeii, do Bastille fazia o sangue nas minhas veias correr rápido e eu não conseguia dormir sem o teu nome na boca.
Eu tremia, de medo e de vontade.
E me segurava com todas as forças, pra não estragar tudo logo no começo.
Fechava os olhos e rezava pra um Deus com o qual nem falo mais, rezava pra ficar boa, saudável e normal. Pra ficar bem pra você.

Lembro de ouvir a versão original de "Best Song Ever" pela primeira vez em uma loja. E senti que era um sinal. Mas não era, era?

Eu sinto muito. Mas não foi culpa minha. Não foi culpa de ninguém. Ou talvez tenha sido minha. Você acha que foi?

Isso passa?
Você não me conhece direito, sabe? Eu sinto muito medo de me deixar ser vista, por infinitas razões. Ainda tinha tanta coisa que, talvez, você devesse saber. Mas te darei o devido crédito, você me conhece melhor do que muita gente.
E é por isso que volta e meia quero saber das coisas, mas só você seria capaz de entender e traduzir as perguntas.
Isso passa? Essa sensação incômoda de não estar preparada pra gostar de ninguém, esse não saber se ainda gosto de você, essa sensação de que não gosto de você que volta e meia vira outra coisa, outras coisas. Eu ainda amo você? Isso vai durar pra sempre? É aquilo que você disse? Ou é só a sensação normal? Sempre que eu amar alguém vai ser assim?

Você me ama?
Você me odeia?
Porque eu entenderia. Seria perfeitamente aceitável, depois de tudo.

Dói?
Se sim, com que frequência?

Tem alguma coisa errada com você?
Comigo?
Com a gente?

Sabe, eu pensei que estivesse tudo bem.
Dessa vez, eu pensei que fosse ficar tudo bem.
Mas eu sei que você pode ver, que você viu antes mesmo que eu visse, que você percebeu, ou sentiu
que eu nunca vou ficar bem.
Eu vou tentar, da minha maneira torta, criar subterfúgios, regras novas, mentiras novas.

Mas nunca vou ficar bem.

Eu queria que você ficasse.
Por alguma razão, egoísta, nojenta, pútrida, normal,
eu queria que você ficasse.
Sem garantias, sem certeza nenhuma.
Por pura loucura, puro impulso, necessidade de se magoar.
Ou só porque
você também quer ficar.

Eu queria, eu quero que você fique.

E é loucura, eu sei.
Pra quê, você deve estar querendo perguntar, naquele seu tom cansado de voz,
e eu não vou responder.
Eu quero. Simples, direto. Eu quero.
De um jeito esdrúxulo, dolorido, triste.
Eu quero.

Mas tudo bem.
Tudo bem, se você não puder ficar.
Tudo bem, se você não quiser ficar.

Se for pra ficar, que seja com alguém que teve a coragem de apertar o interfone.

31x13 O lado azul do sofá

Imagem: TingTing Huang

Maio.

"Vai ficar tudo bem".
Chego em casa às 04:00, é primeiro de maio.
E eu vou sobreviver.
31 dias.
Não pode ser tão ruim.

Então saio de casa.
Pro mesmo lugar onde estivemos 1 ano atrás.
Onde brigamos 1 ano atrás.
E eu percebo que sempre soube,
que acabaria assim.

Sacudo a cabeça e os pensamentos desaparecem, ou se escondem.
Mas não sacudo maio, e ele se infiltra sob minhas unhas, escuro e viscoso.

Decido me concentrar no trabalho.
Estudo, leio, estudo, leio, escrevo, estudo, leio, escrevo, estudo, leio, escrevo, estudo, leio, escrevo.
Termino.
Indo pra casa, meus melhores amigos me dão a notícia de que um de nós seguiu em frente.
Em tempo:
não fui eu.

Um dia de cada vez, eu esqueço o fato de que há um ano, um ano só, eu era outra pessoa.
Em outra vida.
E te olho com os olhos de alguém que nunca te conheceu.
Faz bem.
Ou, pelo menos, não faz tão mal.

Ela se senta e diz
que minhas notas de agora vão decidir meu futuro.
Porque decidiram o dela.
E eu digo a mim mesma que uma porra de uma nota não vai dizer quem eu sou.
Mas tô mentindo.

Esqueço de comer, deixo tudo de lado, não assisto seriados ou leio livros, ou penso em amor.
Eu estudo.
E estudo.
E estudo.
E estudo.
Como se fosse a única coisa que eu tenho, como se fosse a única maneira de provar que sou realmente boa em alguma coisa,
e não uma grande fraude.
Novidade: não é o bastante.

Saio da prova me sentindo lixo,
cega e surda,
suja.
E eu tento lutar com as vozes,
tento lutar contra o aperto na garganta.

Mas eu consigo sentir,
eu consigo quase perceber a sensação rondando,
observando,
esperando,
pra me levar de vez.
Então eu não seguro o choro, nem a dor de me sentir inútil.

Encho a boca de sorvete, pela trecentésima vez esse mês,
e deixo vir.
Fico atenta, escutando meus próprios pensamentos,
esperando,
esperando,
que eles digam tudo de ruim que pode ser dito sobre mim.

Ela diz que me admira, que sou muito inteligente, etc etc

E eu ouço, mas não quer dizer nada.
Porque eu sei que não é verdade.
Mas também sei que é verdade.
E isso me dá uma sensação maior ainda de estranheza.
Porque eu sou boa.
Mas nunca vou ser boa o bastante.

Estamos no supermercado, corredor de condimentos, e eu sinto uma vontade repentina
de desaparecer.
Balanço a cabeça e ela vai embora.
Porque é um dia normal.
Um dia azul.

Sento no carro.
E quero ver você.
Você entenderia, mais ninguém.
Você entenderia, --
Mas aí lembro que não.
Você não entenderia. Você nunca entendeu.
E nunca vai.

Eu só preciso ir embora.
Pra bem longe.
Bem longe daqui.

Pego o carro,
e dirijo.
Dirijo.
Dirijo.
E choro, sem conseguir me conter.
Choro.

Ainda nem estamos na metade do mês,
e eu já posso senti-la sob a pele,
eu já posso ouvi-la nas minhas veias,
vê-la nos seus olhos.

Então eu deito,
durmo
e espero
que acabe logo.

Só acabe logo.

31x12 Camaleão

Imagem: TingTing Huang

"Eu não sei amar pela metade", diz minha amiga.

Ela canta minhas dores, as dores dela.
E eu sinto uma vontade curta, breve, de ser amada.
Mas é uma vontade muito pequena, quando comparada à falta que sinto de você.

Estranho.

Eu sou uma romântica.
Incurável.
Eu quero o drama. Quero o incerto, o inseguro, o impossível.
O acidental, a dor no peito.
Invadir espaços e descobrir segredos.

Eu não teria te amado tanto
se você fosse fácil.

Eu sou uma romântica.
Incurável.
Mesmo assim, ninguém nunca me acendeu velas.
Nem me comprou flores.

Sem atos grandiosos, não bateram na minha porta no meio da noite,
nem me beijaram na chuva.

Não me deram estrelas.

Reclamo, sem reclamar.
Eu sou uma romântica.
Incurável.
Já me levaram pra jantar.
E vieram me buscar pra ir ao cinema.
Já vieram, no meio da noite, ter longas conversas.
E até já me escreveram cartas, já voltaram por minha causa.

Eu sou uma romântica,
não sei amar pela metade.
Sinto ciúmes, e tristeza,
sou capaz de amar muito muito, tanto,
acender velas, comprar flores, beijar na chuva e bater na porta no meio da noite.
Eu escrevo cartas,
e histórias,
fujo no meio da noite.

Não sei amar pela metade.

Não me obrigue a amar pela metade.
Se for pra ser assim,
é melhor não ser.